2 de agosto de 2018

ENTREVISTA - DOUGLAS VERDEN





BIOGRAFIA

Douglas Verden é um artista que vive no Brasil. Tem formação acadêmica em Comunicação Social, onde pela primeira vez entrou em contato formal com alguns conceitos sobre linguagem, semiótica, filosofia e psicologia, o que viria a ser um pontapé para o mergulho nas ciências ditas ocultas, associando-as diretamente com seu trabalho artístico, o que culminou com sua pesquisa sobre quadrinhos nas mídias eletrônicas e a criação de uma história de cunho filosófico e esotérico como projeto final de seu curso de graduação, intitulada “O Abismo da Verdade”.

Dono de um perfil que mais se encaixa na figura do Eremita, fez apenas duas exposições formais, ainda muito jovem: uma delas na escola onde cursou o final do ensino fundamental e outra na Biblioteca Pública de Ceilândia. Grande parte de seu trabalho pode ser encontrado na internet, nas principais redes sociais.

É membro inativo da Rosacruz AMORC e do Colégio dos Magos, e segue seus estudos e experiências esotéricas pelo caminho solitário, algo similar a sua caminhada nas artes que, excluindo-se um curso por correspondência que fez na adolescência, tem sido majoritariamente autodidata. Parte de seus estudos incluem Tarot, Kabbalah, Magia do Caos e práticas de produção artística intuitiva como o Desenho e a Escrita Automáticos. Para o artista, Magia e Arte são sinônimas, irmãs gêmeas e uma não pode ser separada da outra.

Seguem os links onde o artista expõe seu trabalho:

Patreon

Facebook

Tumblr

Deviantart

Instagram

Quem quiser entrar em contato com o artista pode usar as redes sociais ou o e-mail douglasverden@gmail.com




Inomináveis Saudações a todos vós, Coveiros e visitantes!

Douglas Verden é um artista brasileiro que vem se destacando por imprimir um forte Simbolismo Esotérico em todas as suas criações. Em seu Perfil no Facebook, Página neste e Instagram, as abordagens e sutilezas de suas criações transbordam em uma vertiginosa ambientação de clima em constante ebulição mágicka. Entre os dias 30 e 31 de julho de 2018, ele nos concedeu a Entrevista que transcrevo a seguir, na íntegra, ao  Projeto C.O.V.A. - Blog.



Observador de Emanações

PROJETO C.O.V.A.: O que te motivou nos primeiros desenhos que fez na vida? Alguma influência especial ou eles nasceram naturalmente?

DOUGLAS VERDEN: Vamos lá. Olha... Os meus primeiros desenhos, pelo menos os que me lembro lá pelos 11 ou 13 anos, eram carregados de influência do que eu tinha disponível na época: super-heróis e personagens de alguns desenhos animados que eu via. O surgimento de trabalhos nascendo de dentro ia demorar mais alguns anos para surgir. Passei bastante tempo imitando as vozes de outros artistas, muitas vezes sem nem saber quem eram esses artistas, coisa que só vim descobrir depois graças à internet. Então a principio minha motivação era mimetizar as coisas que me interessavam na época, e eu já me sentia imensamente feliz em desenhar um superman reconhecível, rs.

PROJETO C.O.V.A.: Quais foram os artistas que te influenciaram? Algum você destaca como o Mestre do que hoje você cria?

DOUGLAS VERDEN: Essa é uma pergunta difícil, pela quantidade de pessoas incríveis cujos trabalhos já tive a oportunidade de por os olhos, mas vamos acessar a máquina do tempo. Lá na época da adolescência o que eu mais lia eram histórias em quadrinhos, eu costumava ir pra biblioteca pública e ficava lá por horas fuçando no que tivesse sobre o tema e por uma sincronicidade dessas eu me deparei com o livro História da Historias em Quadrinhos, do Alvaro de Moya, e em uma determinada parte do livro ele cita algumas obras que despontaram nos anos 80, e dois artistas que me fisgaram, mesmo que pela pouca quantidade de imagens registradas no livro, foram dois sujeitos: Dave McKean e Enki Bilal.

PROJETO C.O.V.A.: De McKean e Bilal, o que você transportou para seu trabalho?

DOUGLAS VERDEN: Quando faço esse retorno no tempo, esses artistas são os primeiros que me vem à memória como referências para uma atmosfera onírica, recheada com imagens do inconsciente, cenas enevoadas, flertes com divindades... coisas que eu nunca tinha visto nas histórias em quadrinhos que eu costumava ler (revistas mensais da Marvel e DC que eu pegava emprestada com os amigos). Aquilo foi uma explosão... Não havia muito material disponível então as poucas que eu tinha era o que me alimentava.  Só muitos anos depois eu pude ler Orquídea Negra, A Trilogia Nikopol e o Asilo Arkham, por exemplo, e continuar a descoberta de autores e artistas que foram somando cadeiras como mestres.

PROJETO C.O.V.A.: Noto que seu trabalho tem uma fortíssima ligação com o Ocultismo. Você possui algum tipo de Iniciação?

DOUGLAS VERDEN: Sim, esse lado foi e tem sido um desenvolvimento contínuo. Creio que a primeira vez que flertei com essas ideias foi em um desenho onde, pela primeira vez em minha experiência desenhando, consegui materializar naquela imagem, sentimentos muito internos meus. Terminei aquela imagem surreal, fiquei olhando pra ela quase em choque, aquela boca sorrindo maliciosamente equilibrando um prego na língua se preparando para estourar uma balão/mundo flutuando na escuridão. Pra mim, tem termos de experiência, essa foi minha primeira iniciação no ocultismo. Demorei, novamente, anos para experimentar isso novamente, devido a algumas questões pessoais. A segunda iniciação, considero como o momento em que descobri uma forma de trabalhar mais intuitivamente, uma maneira de desenhar onde as linhas, formas e temas jorram sem freios e sem barreiras, coisa que depois descobri que tinha o nome de Desenho Automático e que era explorado intensamente pelo pessoal do surrealismo e pelo Spare, uma autêntica forma de magia visual que, dentre outras coisas, permite desenterrar visões ainda mais profundas. Falando da Arte em si, que no fim é uma das linguagens para se lidar com a questão do Oculto, penso nesses dois momentos que são de extremo peso para o que acabo fazendo hoje. Sobre as iniciações formais dentro de Ordens e Escolas Esotéricas, estive ativo na Rosacruz AMORC por algum tempo e também pelo Colégio dos Magos; atualmente estou inativo em ambas e percorrendo um caminho mais com cara de Eremita, transitando por aí e absorvendo...




Untitled


PROJETO C.O.V.A.: Há alguns elementos de Thelema em seu trabalho. Aleister Crowley chega a ser uma influência ou simples referência?

DOUGLAS VERDEN: Sem dúvida o Careca é uma influência, tanto direta como indiretamente. Direta, por exemplo, pela minha relação com o tarô, que desde o princípio foi uma fisgada tanto por algumas ideias visionárias dele sobre os Arcanos quanto pela materialização deles pelas pinceladas da Frieda Harris. E indireta por conta dos autores que o sucederam que beberam de goles generosos no trabalho dele, como o pessoal da Magia do Caos, só pra ficar numa citação. É difícil mapear esse tipo de influência por que o legado do Crowley acabou permeando e se enraizando intensamente no ocultismo ocidental, muita coisa chega por outros meios até o nosso trabalho. Ouvia muito Raul Seixas na época que meus pais eram tranquilos com essas coisas, e desde ali haviam sementinhas da filosofia thelêmica sendo plantadas através das canções do bardo...

PROJETO C.O.V.A.: Falando em Tarot, você tem planos para desenvolver um futuramente?

DOUGLAS VERDEN: Pois é, essa ainda é uma ideia embrionária e nem posso dizer se vai ser um tarot de fato, dentro da estrutura tradicional necessária para que seja chamada de tarot. Tenho estudado e feito experiências dentro da ideia dos psicocosmos e dos processos criativos para gerar imagens espontâneas, então é muito provável que esse baralho surja disso. Mas não posso prometer nada, rs.

PROJETO C.O.V.A.: Bom tocar no termo psicocoscomos, o que abre espaço para a pergunta de agora. Os quadros mentais de suas obras que possuem muitos simbolismos esotéricos parecem muitas vezes Portais para dimensões mais sutis da consciência. Tais trabalhos nascem da Escrita Automática e adquirem outros significados além daqueles que você nota ao terminar a criação?

DOUGLAS VERDEN: Os sentidos ou significados costumam ser sempre coisas que se mostram ou no meio ou no final do processo, quando vem a contemplação. Tento manter esse anseio por sentido tão distante quanto possível quando desenho, principalmente no começo do processo, para evitar interferências da mente objetiva. Conforme o desenho surge, vou percebendo padrões por meio de pareidolia e começo a brincar com essas formas até o quadro tomar forma na minha frente. Dependendo eu consigo captar alguns versos no processo, noutros só no final me vem algum tipo de significado. Isso tirando os trabalhos onde os desenhos são meditações artísticas sobre um determinado tema, por exemplo, se desejo compreender um pouco melhor a esfera de Netzach, busco manter esse norte em claro destaque no olho da mente, como se fosse um endereço, um link, e daí começo a fazer linhas espontâneas. O processo é mais ou menos o mesmo, mas aqui eu dou um "endereço", que mais ou menos direciona o processo. Mas procuro sempre deixar o trabalho tão fluido quanto posso, o que costuma ser um desafio.



Lady Abyss


PROJETO C.O.V.A.: Seu estudo da Kabbalah está em qual nível? Você pode afirmar que já alcançou algum grau de especialização na manipulação de chaves cabalísticas em sua arte?

DOUGLAS VERDEN: Olha, no que chamamos de estudo sistematizado creio pelo menos ter ultrapassado o básico, rs! Mas falando sério, acho que tudo isso é uma questão do quanto a pessoa deseja explorar do universo banido de si mesmo pelo tipo de vida que a gente leva atualmente, calcado em uma racionalidade científica de fazer vergonha... Vai do quanto se questiona, do quanto se arrisca e da curiosidade. Por que pra você ver, mesmo a famosa e genial estrutura da Árvore da Vida (que no fim das contas acaba se transformando no grande foco dos estudos cabalísticos) é apenas uma dentre as várias possibilidades de se diagramar e sintetizar a consciência, a existência. Pode ser genial (e é), mas não devemos superestimá-la nem vê-la como o único caminho. Tendo a encarar o estudo da Kabbalah, da Astrologia, do Tarot e demais sistemas, como referências para que possamos desenvolver algo único, personalizado para nós mesmos. Então não sei... O que posso afirmar é que venho experimentando comigo mesmo diferentes forma de abordagem da Árvore, buscando nuances que eu não vejo nos sistemas tradicionais, adaptando, testando, sonhando, desenhando sobre isso, escrevendo. E linkando isso o máximo que posso com a realidade que experimento todo dia. As pessoas deveriam tomar coragem de dar o salto e buscar extrair o máximo de seus mundos ocultos, desenterrar os fósseis e deixar esse material surgir sem autocensura. Talvez um dia teremos 7 bilhões de magistas conscientes com 7 bilhões de sistemas mágickos diferentes. A Arte não deveria ser pasteurizada e homogeneizada.

PROJETO C.O.V.A.: O que dizer da Arte que pauta por uma pasteurização e homogeneização que tende, sempre, a torná-la um veículo de arcaicas ideias? "Artistas produzindo e reproduzindo-se como massas desprovidas de contexto e conteúdo", como diria Nietzsche.

DOUGLAS VERDEN: Pois é, ai a gente bate em um problema complicado mesmo pois, se não se abre o véu que dá acesso ao caos potencial que foi banido das vidas da massiva maioria das pessoas, como trazer algo substancial e que toque o outro de alguma forma? Esse não é o ponto... A vontade não diz respeito a trazer esse mundo à tona, trazer o que foi reprimido, o que foi violentado, o que foi varrido pra debaixo do tapete ou socado até o fundo do porão, o negócio é ficar num círculo vicioso sem chegar a lugar algum, com pretensos artistas fingindo que fazem seu trabalho e um público vazio que finge entender o que está vendo. O conceitual por si só não se sustenta. A chama verde da inspiração não vive sem uma forma que a receba e uma forma vazia de inspiração não tem energia para acender faíscas nas cavernas obscuras de outras pessoas.

PROJETO C.O.V.A.: Qual seu objetivo como artista: alcançar o máximo de pessoas que possam compreendê-lo ou falar uma linguagem para poucos que seja apropriado a um determinado tipo de público mais intelectualizado?

DOUGLAS VERDEN: Algo que percebi por experiência própria foi que algo nascido das penumbras do inconsciente dialoga com essas mesmas penumbras, independente das pessoas desejarem ou não. Foi assim quando vi aqueles quadros soltos do Dave McKean ou do Enki Bilal... Se elas olham, o registro foi feito e o diálogo iniciado. Então, algumas pessoas podem se interessar mais pela linguagem intelectual, pelas ideias sendo expressas por termos esotéricos, citando isso e aquilo, mas todas que pousarem os olhos sobre uma imagem, já estão em contato com aqueles portais e criaturas. Então essa coisa do alcance não me preocupa muito na verdade. As filhas e filhos ganharão o mundo e expandirão os conceitos por si mesmos, por suas próprias formas. Na verdade eu fico agoniado quando começo a teorizar mais que produzir rs.

PROJETO C.O.V.A.: Trabalhando assim sob diversas perspectivas de suas obras abrindo-se para diversas mentes e interpretações.

DOUGLAS VERDEN: Algo assim. Que cada pessoa possa absorver da forma que lhe for mais interessante. Ou desinteressante também, rs.

PROJETO C.O.V.A.: Entre os artistas brasileiros, dentro da linha que você desenvolve, quais você destaca?

DOUGLAS VERDEN: Lourenço Mutarelli sem dúvida foi um dos primeiros, descoberto na época dos Quadrinhos. Quando li "O Dobro de Cinco" pela primeira vez me senti lançado em uma dimensão alternativa suja, direta, sem maquiagens e disfarces. Aquilo me deu um tapa na cara, e eu achei o tapa bem-vindo, pois deu uma chacoalhada na forma como eu enxergava as coisas. O trabalho do Lourenço, pelo menos na época das HQs, que é o que eu acompanhei mais de perto dele, é muito visceral, o tipo de coisa que você lê e não tem como continuar o mesmo. Até por que a realidade paralela das histórias é assustadoramente semelhante com a realidade objetiva na qual estamos mergulhados. E pensar que naquela época a coisa tinha recém saído do underground... Enfim, e atualmente eu estou lembrando de mais duas pessoas (com certeza deixando escapar mais gente por que minha memória me prega peças constantemente) que é a Caroline Jamhour, com seu trabalho delicado simultaneamente forte e intenso, recheado de conteúdo esotérico e mitológico (é sempre um delírio e um colírio contemplar o trabalho dela) e o Maurício Takiguthi, um cara que tem divulgado a técnica como ferramenta de expressão de forma ímpar, buscando explorar o realismo de uma perspectiva abstrata e filosófica, num tempo em que os caminhos fáceis são a escolha da maioria essa é uma direção extremamente corajosa...




Lady Abyss (sketch)


PROJETO C.O.V.A.: Determinadas bandas e músicas te acompanham durante o processo criativo?

DOUGLAS VERDEN: Ah sim, muito frequentemente. Posso citar algumas bandas de cabeça: Years of the Goat, Rotting Christ, Behemoth, Covenant, In Solitude, Moonspell, Therion, Watain, The Devil’s Blood (uma das minhas bandas favoritas atualmente) e por ai vai. Tem épocas que descambo pra Vivaldi, Bach, Howard Shore, alguma ou outra coisa de Paganini. No geral fica nisso, mas tem dia que escuto Earth, Wind and Fire, Cat Stevens, Jeff Buckley, trilha sonora de jogos… Nossa tem muita coisa! Wardruna, Narsilion... Se for citar tudo vai ficar uma lista gigante, acho que tá bom, rs.

PROJETO C.O.V.A.: Pode ir citando, vai...

DOUGLAS VERDEN: Tem umas coisas que escuto que nem sei exatamente de onde tirei, de que pesquisa eu estava fazendo, mas vou curtindo junto. Teve uma época que tava interessado em sons ambientes com cara de rituais, pre usar, pre desenhar e coisas do tipo e descobri umas coisas como Arktau Eos e Hexentanz, coisa de bruxas e bruxos no meio das florestas conjurando todo tipo de criatura desconhecida hahah! Se bem que o primeiro que citei é mais tranquilo, mas tem sua densidade… A trilha sonora de Castlevania é linda, por exemplo. Sempre to com ela aqui pra matar a saudade. Castlevania SotN.

PROJETO C.O.V.A.: Muitas de suas criações foram diretamente inspiradas por letras de músicas?

DOUGLAS VERDEN: Algumas, sim, talvez mais no inktober do ano passado, quando fiz uma série inspirada em músicas, que rendeu um bocado de imagens interessantes. No geral a música acaba funcionando como um catalisador para liberar mais energia no processo criativo ou quando estou meditando em pé no ônibus, dependurado, trazendo ideias novas sobre questões nas quais eu esteja trabalhando, rs.

PROJETO C.O.V.A.: Falando no Inktober, você sente falta de uma maior interatividade entre artistas de diversos estilos frequentemente? Falo isto porque o Inktober em si é apenas um evento anual e diversas outras iniciativas deveriam ser postas em práticas continuamente. Qual a sua opinião sobre isto?

DOUGLAS VERDEN: Você fala de mais artistas unidos dentro de propostas específicas?

PROJETO C.O.V.A.: Sim, além dos limites impostos pela Internet, mas que tenham seu embrião inicialmente alimentado na mesma.

DOUGLAS VERDEN: Cara... Não sei, artistas podem ser criaturas bem ariscas também, eu mesmo costumo me meter em uns sumiços e nesses momentos talvez a última coisa que ia querer ia ser participar de algo mais coletivo, mas por outro lado esses projetos dão a possibilidade de experimentar coisa nova e se posicionar além de um ponto confortável. O único problema que vejo é manter o interesse, principalmente nas iniciativas locais, de conseguir manter a energia focada. Já fiz algumas experiências assim no passado, alguns testes, a coisa nunca vingou muito… Talvez por uma falta de norte que sustente a produção em uma direção mais profunda, mais significativa para todos que participam.

PROJETO C.O.V.A.: Há muita desunião entre os artistas brasileiros, fator que contribui para os resultados negativos de qualquer iniciativa do tipo?

DOUGLAS VERDEN: Cada um envolvido com seu próprio universo, outros em apego com o que se cria, gente com medo do outro, medo da crítica, ou se não medo uma postura de dono da verdade. Sinceramente não sei como anda isso na academia, até por que eu mesmo não tenho formação tradicional em Artes, mas são essas as impressões que tenho. E quando algumas coisas funcionam, elas funcionam de forma bem fechada, os grupos me parecem exclusivos.

PROJETO C.O.V.A.: Mas, esse exclusivismo anuncia sempre uma arte morta, sem sentido, identidade, autenticidade ou naturalidade.

DOUGLAS VERDEN: Então, a coisa circula em alguns meios, mas não sai dali. Eu não estou circulando nos meios mais tradicionais, mas também não to presente na cena underground, então é difícil dizer como essa coisa pode estar caminhando nesses dois sentidos. Também tem a coisa da produção se retroalimentando, sem sair desses círculos... Mas também, sendo bem sincero, essas questões acabam ficando secundárias quando penso no fazer artístico, por que acredito que o principal é a pessoa e o dialogo dela com o que faz, independente se outras pessoas verão ou não, se vão gostar ou não, se vão comentar ou não. Essa parte deveria ser secundária... E cabe a pessoa revelar ou não o seu trabalho particular. Tenho alunos por exemplo que não gostam de mostrar seus desenhos, pois pra eles aquele material é como um diário, revelações íntimas. Outros vão pro caminho oposto... Mas seria interessante ver esse material mais intimo exposto, ate por que, quase sempre, esses são os que mais tocam e dialogam com a gente.




PROJETO C.O.V.A.: Poderia falar um pouco do seu trabalho como Professor de Arte?

DOUGLAS VERDEN: No ateliê onde dou aulas, é regra geral deixarmos as alunas e alunos se expressarem e se desenvolverem no estudo artístico conforme a curiosidade vai surgindo. Sempre com aquelas doses de incentivo, é claro, rs. Mas é uma didática bem focada no indivíduo, em trabalhar as habilidades individuais ao invés de pensar em um conteúdo x que todos devem dominar igualmente. Daí eu divido a coisa toda em três caminhos:

1- o estudo mais denso do desenho, que é basicamente aprender técnica, estudar construção do desenho, esboço, luz e sombra, anatomia, volumetria, composição

2 - o estudo que tende a ser mais focado na percepção, em técnicas pra aguçar a forma como se enxerga a realidade em formas e linhas, re-aprender a traçar, fazer exercícios de desbloqueio perceptivo

3 - síntese entre o primeiro e o segundo, que é usar a técnica linear somada ao fluxo não linear com o objetivo de criar, dar vida às realidades invisíveis (ou visiveis, por que não?)

PROJETO C.O.V.A.: Um encorajamento da produtividade sem restrições.

DOUGLAS VERDEN: Exato!

PROJETO C.O.V.A.: Parece uma utilização de outro modo do Psicodrama esse processo de suas aulas.

DOUGLAS VERDEN: É a busca pela espontaneidade perdida, pela reconexão com a intuição, do desenho mais solto, orgânico, dinâmico. Tal como nas iniciações, esse processo ajuda os próprios alunos a irem percebendo conteúdos deles registrados em seus sketchbooks. Dificuldades que se revelam com o passar do tempo… Mas é um desafio constante.

PROJETO C.O.V.A.: Os resultados tem sido satisfatórios? Alguns alunos seus se destacam?

DOUGLAS VERDEN: É interessante que alguns chegam na abordagem do desenho não linear de forma mais natural, outros sentem mais dificuldade em abandonar os métodos mais cartesianos. Mas existem algumas criaturinhas que são uns monstrinhos no desenho, rs. Tudo depende do background da pessoa, da personalidade, do temperamento. A formação influencia demais, quem por exemplo sempre esteve muito mergulhado em uma rotina mais rígida, organizada, limpa, idealizada em um ângulo de 90 graus, sente dificuldade até mesmo em segurar o lápis de uma forma diferente. Então a jornada se alonga, e vamos trabalhando devagar, sem pressa... Pra pessoa ir sentindo e se percebendo no que está fazendo. Algumas vezes o próprio aluno percebe essas dificuldades e faz o link com alguma coisa que tenha vivido. O contrário é igualmente válido: se falta a noção marciana de severidade e disciplina, normalmente existe um bloqueio para aprender técnicas mais restritivas, como estudar anatomia humana por exemplo. Então vamos jogando de um lado e do outro, buscando a melhor forma de auxiliar as alunas e os alunos.

PROJETO C.O.V.A.: Na questão da Anatomia, seus desenhos e ilustrações são bastante elaborados. Intensas horas de estudo contínuo nesse sentido?

DOUGLAS VERDEN: Não tanto quanto eu gostaria, rs! Eu me empenho em pontos específicos quando percebo problemas, reviso a anatomia de algum ponto específico quando necessário e faço algumas visitas mais gerais, pegando a figura como um todo. Mas no desenho intuitivo, automático, não há muito espaço para ficar se preocupando em demasia com a anatomia exata, se fizermos isso matamos a espontaneidade. Então o objetivo é interiorizar ao máximo a representação de corpos, animais, estruturas vegetais, rochas, enfim, enriquecer o repertório visual e a representação deles por meio da observação e do gesto, para poder se preocupar só em criar na hora de criar, se preocupar em fazer contato com o que for surgindo.

PROJETO C.O.V.A.: Qual sua preferência: Arte Tradicional ou Arte Digital (esta sendo uma forma de aprimoramento de alguns trabalhos específicos)?

DOUGLAS VERDEN: Para o desenho, Tradicional. Para pintura, o Digital tendendo para um empate. A pintura tradicional é um desafio, talvez um dos maiores atualmente, pois estou em um ponto de pesquisa e exploração para encontrar uma forma de pintar que se encaixe com o fluxo de trabalho do desenho automático, o que traria uma pintura automática por assim dizer. Então estou experimentando... Mesmo no digital tem sido uma jornada de exploração.

PROJETO C.O.V.A.: Já experimentou ou pensa experimentar a pintura em quadros de grandes dimensões?

DOUGLAS VERDEN: Penso em, rs. Inclusive estou com um par de telas aqui que diariamente me observam e perguntam quando tomarei a iniciativa de encará-las. Sei que estou a caminho.

PROJETO C.O.V.A.: Pode falar dos temas que pretende trabalhar em cada uma delas?

DOUGLAS VERDEN: Não faço ideia! Pretendo que seja uma experiência do momento, então não estou planejando nada. Assim tem acontecido com os meus desenhos e pretendo seguir essa ideia para as pinturas que nascerão. Influenciar o mínimo para obter um reflexo mais nítido do que há atrás da máscara. Mas a técnica em si, certamente vai ser baseada em um processo intuitivo.




Sea Mother


PROJETO C.O.V.A.: Sua arte é impactante, sendo muitas vezes livre em determinados temas, como no tocante à nudez ou sexualidade. Por causa destes aspectos em específico, você já sofreu preconceito de algum tipo dentro e fora do mundo virtual?

DOUGLAS VERDEN: Algumas pessoas parecem se sentir extremamente incomodadas em ver corpos nus se contorcendo em êxtase. Tive alguns episódios de avisos no Facebook e algum ou outro comentário no Instagram, mas nada muito incisivo. Pode ser sorte. Mas se elas se permitissem a oportunidade de trazer a tona conteúdos não censurados elas se surpreenderiam com as imagens que brotariam de suas próprias mãos. Essa ideia me diverte imensamente! As vezes me parece que essas pessoas se esqueceram que elas nasceram sem roupa e que foram criadas durante um belíssimo acasalamento, infelizmente nem sempre com o êxtase mútuo. É inconcebível que coisas tão naturais quanto a nudez e o sexo sejam provoquem tantos problemas na cabeça da humanidade… Estamos doentes.

PROJETO C.O.V.A.: E há alguma crítica nas entrelinhas contra a hipocrisia da nossa sociedade, principalmente nestes tempos de retorno da censura ao Brasil? Melhor dizendo: em sua arte há a natureza dessa crítica?

DOUGLAS VERDEN: O engraçado é que eu não penso nisso de forma direta quando produzo, talvez possa ser o resultado do processo de buscar imagens que estão lá nas teias de aranha da consciência, algo que traz a tona coisas que não querem ser vistas. Ou que são veemente negadas. De qualquer forma, direta ou indireta, posso saborear essa crítica, por que se tem uma coisa que não faz o menor sentido é a hipocrisia. Esse faz de conta social que dá náuseas em qualquer um. E não é por que se nega uma coisa que ela some, os nosso demônios sempre nos esperam na esquina quando fazemos de conta que eles não existem, cobrando o devido tributo.

PROJETO C.O.V.A.: Em um país tão católico quanto o Brasil e com um grande contigente de fundamentalismo protestante em franca expansão, seu trabalho pode ser considerado transgressor e de vanguarda em muitos sentidos. Como é ser um criador livre de dogmas e preconceitos em um país como este?

DOUGLAS VERDEN: Não estou bem certo se sou tão livre de dogmas e preconceitos quando desejo, embora busque lidar com isso da melhor forma possível na tentativa de eliminar essas duas palavras do cotidiano. Digo isso por que fui criado em partes dentro dessa egrégora e sei que essas coisas são difíceis de se reescrever, mas a linguagem mágicka está aí pra isso… De forma geral a sensação é de se viver em uma dimensão paralela. Talvez da mesma forma que algumas pessoas olham e não compreendam o que faço, olho para elas da mesma forma. Se ao menos a tolerância fosse algo com a qual pudéssemos contar, ainda haveria uma trégua. Mas não parece ser esse o caso.

PROJETO C.O.V.A.: Como, geralmente, você se sente ao não ter sua arte compreendida por algumas pessoas?

DOUGLAS VERDEN: Acho que todo mundo entende, no fim... A subjetividade é um elemento com o qual é divertido jogar e retorna com pérolas curiosas. Não sei se vale muito a pena ficar preocupado com uma compreensão específica sobre um trabalho artístico, claro que o artista tem coisas em mente, seja durante o processo ou somente depois de terminada a obra - no caso uma interpretação específica do artista sobre algo que nem mesmo ele pode ser 100% preciso sobre a origem - mas isso é algo mais particular e não parece muito saudável esperar uma visão unilateral da obra. Obviamente que existem alguns comentários meio malucos, mas até isso é divertido rs. Além de existir outro fator para s preocupar aqui: grande parte das pessoas não dominam muito bem a leitura de imagens, a interpretação visual, nosso país é muito carente nesse sentido. Se temos tanto problema relacionado à alfabetização, imagine sobre a leitura de imagem e, indo mais longe, da leitura simbólica, cheia de subjetividades. Por isso acho que não dá pra encanar muito com essa coisa da compreensão. Cada pessoa mergulha até uma profundidade que lhe é familiar, pelo menos com a mente objetiva.

PROJETO C.O.V.A.: Uma última pergunta: qual destino você tem em mente com relação a sua obra como um todo?

DOUGLAS VERDEN: Que cresça e se multiplique por aí, as obras em si ou o pensamento por trás da obra, que envolve a conexão com o processo artístico e a busca pelo mergulho em seus respectivos oceanos escuros. Que voem, seja pelo meio virtual, espalhadas em alguns cantos da internet, sejam materializadas em suportes físicos, por meio de artbooks, cartas, pôsteres e o que mais for possível nessa jornada. Afinal de contas, a obra já está viva mesmo...

PROJETO C.O.V.A.: Muito obrigado, Douglas Verden, por conceder esta entrevista a este blog. Você tem uma palavra final para os leitores?

DOUGLAS VERDEN: Que isso, eu que agradeço a oportunidade pelo bate papo. E para os leitores a palavra é: criem. Somos deusas e deuses que possuem as habilidades para criar mundos e universos inteiros, só precisamos despertar para isso, pois até aqui temos criado de forma inconsciente, dando origem a milhares de filhas e filhos órfãos. Assuma as crias perdidas, escolha sua linguagem favorita e manifeste-se em seus próprios mundos e aproveitem para aprender o máximo que puderem com suas crianças imateriais. É isso. Obrigado mais uma vez pelo convite, Inominável Ser!




O Espírito Do Ajustamento




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