9 de julho de 2013

A Ideologia Constantine - Parte III


Saio sem fazer barulho, como se fosse para não acordá-la...
Contente por ter lhe dado
alguma paz.
Lá fora, a vida no Inferno continua.
Só que, agora, o material isolante foi arrancado
e o vento faminto da mortalidade
arranha os ossos de todos.
E eu gosto dessa sensação.
O mundo ainda é um lugar feio e feroz,
cheio de almas tristes enfrentando
uma tempestade de merda
para sobreviver...
Mas,
estou em contato com isso outra vez.
Estou bêbado feito um adolescente,
com uma paixão fervorosa por justiça humana...
Bêbado de amor...
    — Puta merda! É verdade...
Eu me importo com esses malditos imbecis de novo.
Até me importo comigo mesmo.

John Constantine
in: A Horrorista, Parte 2, pag. 48

Importar-se com a Humanidade. Importar-se dedicada e profundamente à Humanidade. Dedicação responsável. Dedicação de altíssimo valor. Dedicação de frutificações bastante vastas. Uma dedicação assim não combina com Seres como Constantine? É contraditório em um homem que é mais egoísta do que altruísta? É uma dedicação mentirosa? É uma dedicação hipócrita? É uma dedicação sensivelmente construida? A resposta, as respostas, apenas na leitura das histórias de Constantine, este que pode convosco, leitores virtuais, falar muito além dos balõezinhos. Apenas devemos ser claramente isentos de julgar precipitadamente todas as atitudes do personagem, tão bem moldado pelos seus roteiristas com uma densidade e uma profundidade de conteúdos isentos da superficialidade de muitos dos personagens do Universo Dos Quadrinhos. A principal preocupação é não contextualizar a personalidade do personagem nos moldes das contextualizações dos seres humanos que se especializam em visões moldadoras de como alguém é interiormente. É a mais viva das dádivas maiores uma análise de todo conteúdo de um personagem, ainda mais um grande personagem, muito bem aproveitado, como Constantine. Analisemos, então, a sua vida pessoal, mas sem a mítica simplória das fofocas das revistinhas vendidas nas bancas de jornal. Analisemos de uma forma livre de excessivos psicologismo, livre de sentimentalismos, livre de posicionamentos em caminhos simploriamente dotados de restos de auto-ajuda. Analisemos, então, o que é a relação de Constantine com o Amor... Amor... Na conclusão deste leitor e admirador, fã e criatura compreendedora do Ser Constantine, este não nasceu para a formação de uma família sólida, quer dizer, uma esposinha amável e adorável, filhinhos amáveis e adoráveis, enfim, uma família amável e adorável para os grandes bons olhos da nossa sociedade!
 
Esqueçamos Zed, Kit, qualquer outra mulher que vimos nos braços de Constantine em suas histórias. Esqueçamos e avancemos; como dito no parágrafo anterior, isto aqui não é uma estúpida e vazia revista de fofoquinhas como a Quem, a Marie Claire, a Caras, a Contigo, qualquer dessas bostas fodidas para mentes que não sabem raciocinar além do óbvio, superficial e vulgar. Equivale, assim, a constatarmos uma realidade que nem mesmo o personagem, visivelmente, consegue visualizar: a trilha dele, a verdadeira trilha dele, passa longe do Amor, o Amor que é o da sentimentalidade excessiva, guiando à carnalidade sendo satisfeita, culminando na união muito comum de um homem e uma mulher a fins de procriação. Esse tipo de Amor é exatamente isto: mera desculpa esfarrapada para a procriação. E este é o tipo de Amor que é maior e mais justamente perceptível em Constantine se nos atermos aos seus fracassos em tentar ser uma pessoa devotada ao comum ser bem quisto pela sociedade, o comum ser que casa e procria, simplesmente: O Amor À Humanidade, Amor que ele mesmo nega muito, mas Sabe que em si permanece. Como dito nas partes anteriores deste delinear da Ideologia Constantine, ele é trapaceiro, vigarista, canalha, capaz até de te trair pelas costas se for necessário, pisando até em seu sangue ao solo se duvidar; entretanto, o maior trunfo dele e o menos visado por muitos leitores, está nas concessões que ele faz à Humanidade. Tais concessões ficam claras no início desta terceira e última parte de um trabalho crítico-analítico voltado para o Ser Constantine., no trecho citado de A Horrorista. O trecho é um completo resumo das características principais de tais concessões, características de ideal anunciação do prazeroso estado de Ser um não-dado à indiferença total com relação aos demais seres humanos. No segunda parte do artigo, quando ele se refere aos seus “colegas” em Ocultismo, ele declara que os mesmos fugiram da realidade, não estão acostumados com o contato íntimo demasiado à margem dos rios e oceanos e galáxias e universos e criações mais abissais, tanto do Mundo Das Trevas e dos Infernos quanto do Mundo Humano. 
 
Que Mundo Humano? 
 
Afinal, nosso mundo, o mundo no qual Constantine poderia estar a caminhar, o mundo nos Quadrinhos no qual Constantine caminha, não é O Mundo Desumano, O Mundo Da Desumanidade Que Substituiu A Verdadeira Humanidade? 
 
Não somos nós, aqui deste mundo, mais desumanos do que humanos?
 
Não são os personagens do mundo de Constantine mais desumanos do que humanos?
 
Somos bastante desenvolvidos, por um acaso?
 
Somos seres superiores, por um acaso?
 
Os personagens do mundo de Constantine são bastante desenvolvidos, por um acaso?
 
Os personagens do mundo de Constantine são seres superiores, por um acaso?
 
Entre O Humano e O Desumano, entre A Humanidade e A Desumanidade, entre A Glória Eterna e A Desgraça Contemporânea, Constantine caminha, vestindo seu sobretudo, fumando seus cigarros. Ele te seduz, leitor virtual... Ele te seduz, leitora virtual... Para muitos, o mundo dele, o mundo de um Ser que não pode ser medido, pesado e conjugado como determinável diante dos padrões sociais e morais que apodreceram todas as chances de uma verdadeira evolução desta nossa civilização, é uma coisa desprezível. Para outros, John Constantine e seu mundo são puro lixo, não o consideram um personagem importante para a História Dos Quadrinhos, não o vêem como um dos mais instigantes e interesantes e pulsantes da História Dos Quadrinhos. Para outros, ainda, o Louco Ser Constantine é um personagem esquecível, sem atrativos de maiores capacidades a torná-lo algo importante para a mesma História Dos Quadrinhos. A Terra é um mundo de liberdades, as de pensamentos, as de opiniões, pelo menos. Para quem é fã do Superpoderoso Constantine, Superpoderoso a níveis de fazer o que muitos nos Quadrinhos não possuem a coragem e nem a capacidade e nem o interesse em fazer, ele é O Mago, Querendo Fazer, Sabendo Fazer, Ousando Saber, Calando Sobre O Seu Saber...
 
Aqui conclui-se A Ideologia Constantine, esta série de artigos especiais sobre Hellblazer. Comentem, opinem, divulguem ou esqueçam o que leram assim como a fumaça do cigarro de John Constantine rapidamente esvai-se...

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