6 de dezembro de 2009

A Harmonia - Álvares de Azevedo

Meu Deus! se às vezes, na passada vida,
Eu tive sensações que emudeciam
Essa descrença que me dói na vida
E, como orvalho que a manhã vapora,
Em seus raios de luz a Deus me erguiam
Foi quando às vezes a modinha doce
Ao sol de minha terra me embalava
E quando as árias de Bellini pálido
Em lábios de Italiana estremeciam!

Ó santa Malibran! fora tão doce
Pelas noites suaves do silêncio
Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,
Na agonia de um beijo, ouvir gemendo
Entre meus sonhos tua voz divina!

Ó Paganini! quando moribundo
Inda a rabeca ao peito comprimias,
Se o hálito de Deus, essa alma d’anjo
Que das fibras do peito cavernoso
Arquejava nas cordas entornando
Murmúrios d’esperança e de ventura,
Se a alma de teu viver roçou passando
Nalgum lábio sedento de poesia,
Numa alma de mulher adormecida,
Se algum seio tremeu ao concebê-lo...
Esse alento de vida e de futuro
— Foi o teu seio, Malibran divina!

Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros,
Desdêmona sentida e moribunda,
Nunca pude beber no teu exílio...
Nos sonhos virginais senti ao menos
Tua pálida sombra vaporosa
Nesta fronte que a febre encandecera
Depor um beijo, suspirar passando!

Meu Deus! e, outrora, se um momento a vida
De poesia orvalhou meus pobres sonhos,
Foi nuns suspiros de mulher saudosa,
Foi abatida, a forma desmaiada,
Uma pobre infeliz que descorando
Fazia os prantos meus correr-me aos olhos!

Pobre! pobre mulher! esses mancebos
Que choravam por ti... quando gemias,
Quando sentias a tua alma ardente
No canto esvaecer, pálida e bela,
E teu lábio afogar entre harmonias
— Almas que de tua alma se nutriam!
Que davam-te seus sonhos, e amorosas
Desfolhavam-te aos pés a flor da vida...
Ai quantas não sentiste palpitantes,
Nem ousando beijar teu véu d’esposa,
Nas longas noites nem sonhar contigo!

E hoje riem de ti! da criatura
Que insana profanou as asas brancas!...
Que num riso sem dó, uma por uma,
Na torrente fatal soltava rindo,
E as sentia boiando solitárias...
As flores da coroa, como Ofélia!...
Que iludida do amor vendeu a glória
E deu seu colo nu a beijo impuro...
Eles riem de ti!... mas eu, coitada,
Pranteio teu viver e te perdôo.

Fada branca de amor, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?
Por que deixavas encostada ao seio
A cabeça febril do libertino?
Por que descias das regiões doiradas
E lançavas ao mar a rota lira
Para vibrar tua alma em lábios dele?
Por que foste gemer na orgia ardente
A santa inspiração de teus poetas...
Perder teu coração em vis amores?
Anjo branco de Deus, que sina escura
Manchou no teu regaço as roupas santas?

Pálida Italiana! hoje esquecida.
O escárnio do plebeu murchou teus louros!
Tua voz se cansou nos ditirambos...
E tu não voltas com as mãos na lira
Vibrar nos corações as cordas virgens
E ao gênio adormecido em nossas almas
Na fronte desfolhar tuas coroas!...








Três Deuses Da Música Clássica, três Grandes Gênios Da Humanidade, no século dezenove, apresentam-se na divinal vestimenta musicalmente rica que Álvares de Azevedo nos oferece no poema acima. Mas, a lira toca mais alto para a belíssima Deusa Malibran, a soprano, atriz e compositora franco-espanhola (não italiana, como dito acima no poema; seria uma licença poética de Álvares de Azevedo torná-la italiana?) encantada, encantante, encantadora e emoldurada, emoldurante, moldadora dos amores dos outros dois Deuses e dos demais que pela Itália, embevecidos e envolvidos pelo seu sensual modo de no palco expressar-se, tal qual o poeta nos faz chegar a concluir devido ao calor contido na definição de Malibran em versos de alta carga de carnais voltagens. Expressado no poema a aura de ascensão e queda de Malibran, como vós podereis saber ao lerdes a biografia; ascensão em beleza, vigor e sucesso como soprano, que o poeta mais faz valer nos versos. Como uma musa do lirismo do mundo antigo, lirismo ao qual nosso querido poeta aqui admirado e comentado, Malibran toma o formato, através da pena dele, de uma intensiva força primordial da Natureza, uma dessas mulheres altíssimas que apenas uma vez a cada geração tomam conta do ar, do mar e da terra dos que estão conectados ao Poetizar e ao Sonhar. Malibran, conhecida, esquecida, mas pela pena do poeta reerguida da tumba para a Imortalidade, elevada aos poéticos elevados horizontes da Deusa Poesia para ser relembrada no futuro como uma grande musa inspirada, indspirante e inspiradora de uma poesia fazedora de Eternas Musas como ela. Musas que, mesmo diante do escárnio do populacho, das pessoas inferiormente aculturadas, ignorantes de todas as épocas, sobrevive na memória dos admiradores de sua construtiva trajetória material, já que Malibran foi uma das figuras de vulto no início do século dezenove ligada à Cultura, uma celebridade da época romântica italiana, tendo percorrido, com sucesso, diversas cidades do mundo apresentando a sua beleza, a sua magia e a sua arte, um todo completo versátil que poetas compreendem como o das Grandes Musas de todas as Eras e todas as Idades amparadas por uma brilhante genialidade.

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