25 de julho de 2009

Blackest Night - A Noite Mais Densa: Filha Direta Do Universo Dark E Das Teorias Filosóficas E Espiritualistas Acerca Da Morte



A HISTÓRIA



NO TÚMULO DO MEU AMIGO

JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR


EPITÁFIO

Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...

Insano profanei-a nos amores!

Se da c’roa dos sonhos perfumados

Eu próprio desfolhei as róseas flores!


No vaso impuro corrompeu-se o néctar,

A argila da existência desbotou-me...

O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,

Da nódoa das paixões purificou-me!


E quantos sonhos na ilusão da vida!

Quanta esperança no futuro ainda!

Tudo calou-se pela noite eterna...

E eu vago errante e só na treva infinda...


Alma em fogo, sedenta de infinito,

Num mundo de visões o vôo abrindo,

Como o vento do mar no céu noturno

Entre as nuvens de Deus passei dormindo!


A vida é noite! o sol tem véu de sangue...

Tateia a sombra a geração descrida!...

Acorda-te, mortal! é no sepulcro

Que a larva humana se desperta à vida!


Quando as harpas do peito a morte estala,

Um treno de pavor soluça e voa...

E a nota divinal que rompe as fibras

Nas dulias angélicas ecoa!


Álvares de Azevedo



Inomináveis Saudações a todos vós, cadáveres leitores.


Antes de falar da Blackest Night, gostaria de elucidar a seguinte questão que deva estar na mente de alguns dos que acessam e acompanham este blog: "Por que um evento dos Quadrinhos mainstream está sendo divulgado em um blog voltado para o Underground?". Meus cadáveres leitores, membros do Underground ou não, simpatizantes do Underground ou não, este artigo não tratará de enaltecer ou se atentar ao fato de que a Blackest Night pertence a uma das maiores editoras do mundo, a DC Comics, a segunda maior em vendas nos Estados Unidos, perdendo apenas para a Marvel Comics. Quero tratar do conceito por trás da Blackest Night, o grande evento épico da DC na qual todos os mortos se erguerão de suas tumbas como zumbis a fim de se vingarem dos que permaneceram vivos enquanto eles desapareceram materialmente do Universo, A Tropa Dos Lanternas Negros, capitaneada por uma dos Guardiães Do Universo, corrompida, Scar, e um antigo vilão da editora, o Mão Negra. Ainda não se sabe quais são os objetivos reais da citada Tropa, quais os alcances de suas ações, já que a série está apenas em seu início; mas, para se ter uma leve e simples idéia, TODO o Universo será vítima da marcha desses zumbis, o que comprova que não se trata apenas de uma saga que se limite ao Planeta Terra, que, na mitologia da DC, é o centro do Multiverso, o qual é formado por 52 mundos, incluindo a Terra.


A Paixão dos membros da Tropa Dos Lanternas Negros é A Morte. A Morte, Esta Companheira nossa presente a todo momento diante de nossos corpos, de nossas faces, de nossos olhos, de nossos espíritos e de nossas almas. Os vivos serão confrontados com os espectros todos de seus entes queridos, amigos e inimigos mortos e renascidos de suas covas para cobrarem pelo que lhes ocorreu; ao mesmo tempo, a consciência da própria mortalidade, da efemeridade da materialidade, da inútil busca pela material imortalidade, pois tudo tende a desaparecer conforme as Leis Da Vida E Da Morte, serão constantentemente ressoantes nas consciências e no inconsciente dos vivos, causando impactos poderosíssimos equivalentes ao eclodir de infinidades de bombas atômicas. Geoff Johns, o maior e melhor escritor de história em quadrinhos da atualidade, um artista pleno capaz de nos brindar com histórias fantasticamente bem realizadas e que lembram as das épocas nas quais havia a mais alta qualidade em todos as histórias da Nona Arte, é o guardião do desenvolvimento da espinha dorsal da Blackest Night, do conceito original e imprescindível do início, do meio e do fim desta saga que causará um impacto infinitamente estrondoso no universo DC e nos leitores deste mesmo universo DC. Até aqui, foi falado da conceituação de toda a essência da história, conhecida já da maioria dos que acompanham a editora; podemos, então, partir, para outras leituras, outras abordagens, afirmando mais puramente a interligação sugerida no título mesmo deste artigo.





A INFLUÊNCIA DO UNIVERSO DARK



SONETO


Já da morte o palor me cobre o rosto,

Nos lábios meus o alento desfalece,

Surda agonia o coração fenece,

E devora meu ser mortal desgosto!


Do leito embalde no macio encosto

Tento o sono reter!... já esmorece

O corpo exausto que o repouso esquece...

Eis o estado em que a mágoa me tem posto!


O adeus, o teu adeus, minha saudade,

Fazem que insano do viver me prive

E tenha os olhos meus na escuridade,


Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos por piedade,

Olhos por quem viveu quem já não vive!


Álvares de Azevedo



A primeira referência dark que me vem à mente é a deste clássico da Música Gótica, Bela Lugosi's Dead, do Bauhaus:



White on white translucent black capes
Back on the rack
Bela Lugosi's dead
The bats have left the bell tower
The victims have been bled
Red velvet lines the black box
Bela Lugosi's dead
Undead undead undead
The virginal brides file past his tomb
Strewn with time's dead flowers
Bereft in deathly bloom
Alone in a darkened room
The count
Bela Logosi's dead
Undead undead undead



E, também, Anatomia, da banda Maldita:



Eu me fechei na escuridão
Sangrento era o corpo em minhas mãos
Comprei a arma só pra te assustar
Minha intenção não era de te matar
Eu a arrastei até o cemitério
Seus olhos brancos eram cadavéricos
Me fechei na escuridão
Eu lavei o sangue seco nas minhas mãos
O que eu fiz é algo tão intenso
Eu precisava saber como ela era por dentro
O que eu fiz é algo tão intenso
Eu só queria saber como ela era por dentro

Sinto o remorso quer me sufocar
O cheiro de morte infestava o lugar
Comprei a arma só pra te assustar
Minha intenção não era de te matar
Eu a arrastei até o cemitério
Seus olhos brancos era cadavéricos
Mostrei a puta o que se cava enterra
Joguei ela no chão e abri suas pernas

O que eu fiz é algo tão intenso
Eu precisava saber como ela era por dentro
O que eu fiz é algo tão intenso
Eu só queria saber como ela era por dentro

Eu vou amar você pra sempre
Eu sei, eu sou doente
Eu vou amar você pra sempre
Não precisa me dizer que eu sou doente

Eu sempre achei você demais
O meu problema era com seus pais
Mostrei a puta o que se cava enterra
Joguei ela no chão e abri suas pernas

Sinto remorso quer me sufocar
O cheiro de morte infestava o lugar
Seu nome era necrofilia
Minha percepção de amor é doentia
Minha percepção é doentia



Mais do que clara está a nítida influência do Universo Dark na Blackest Night. Há alguns anos atrás, a Marvel já havia utilizado zumbis em uma série de histórias, mas a DC aperfeiçoou a conceituação e elaborou um painel mais elaborado de referências aos temores dos vivos em relação à Morte. Há um quê fundamental de Dark Art típica e nativa das melhores abordagens artísticas acerca da Morte e Seus Mistérios como vista nas obras de Luis Royo, Gerald Brom, Dorian Cleavenger e demais artífices de sombrios espetaculares visões. Há um quê primordial dos contos de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e demais arautos magistrais das palavras nascidas no âmago de cada uma das eternas sombras terrestres. Há um quê dos jogos para computador e videogames mais atuais que apresentam zumbis como desafios para os que se viciam neles, jogos como Doom, Resident Evil e muitos outros. Ao olharmos para os desenhos, principalmente os do fenomenal brasileiro Ivan Reis e os do americano Doug Mahnke, dois dos melhores desenhistas da atualidade, já premiados algumas vezes por sua atuação nos Quadrinhos, temos a impressão de estarmos assistindo a um dos filmes da série Living Dead (Os Mortos-Vivos) e as várias fitas que continuam até hoje a versar sobre essa temática, desde imitações do filme original a visões mais autênticas. E a lenda do Vampiro Ficcional, tão defendida e amplifica pelo Cinema, também pode ser uma referência na essência da Blackest Night, pois todos erguem-se de suas covas com sede de sangue, com sede de vingança, uma sede típica de todos aqueles que no Além-Vida não conseguem conter A Besta, uma Fera Interior que deve ser domada.


Um filme de Terror e de Horror ao mesmo tempo, com uma interessante abordagem em meio aos mitos em redor dos super-heróis, assim podemos definir esta saga. É caso conhecidíssimo entre os amantes dos Quadrinhos que as histórias da DC são as que possuem mais conteúdo do que as das demais editores, um peso a favor que a torna, quanto ao ritmo e qualidade dessas histórias, a melhor editora da atualidade. Quando se fala em Morte, assim mesmo escrita com “M” maiúsculo, representando uma Alta Entidade à espreita dos super-heróis, sempre se tem a idéia de que estes são “Deuses Acima Da Morte E Eternos Personagens Que Jamais Morrerão”. A DC foi contra isso, matando o Superman Clark Kent, a Moça Maravilha Donna Troy, o Lanterna Verde Hal Jordan e o Flash Barry Allen, trazendo-os à vida depois; mais recentemente, Ajax, O Caçador De Marte, e Batman, foram “mortos” no evento Crise Final; antes, na Crise Infinita, o Superboy Conner Kent foi morto pelo Superboy-Prime Clark Kent da Terra Primordial; e o Flash Bart Allen foi morto em um combate contra a Galeria De Vilões. Enquanto estes dois últimos retornaram na Crise Final na já clássica e excelentíssima Legião Dos Três Mundos, Ajax retornará nesta Blackest Night e Batman continuará desaparecido, pondo em dúvidas mesmo se morrera após ser atingido pelo Efeito Ômega do Darkseid na sexta edição de Crise Final. E não apenas os heróis estarão sendo confrontados com a Presença da Senhora Morte, os anti-heróis e os vilões, também, tornando-se mais complexa a narrativa de várias facetas elementares da saga.


É fácil para um fã do Superman e do Lex Luthor sempre pensar que eles “viverão para sempre”, de geração em geração de leitores sendo ressuscitados sob novas formas, atualizados conforme as épocas que possam alcançar. Mas, como em O Iluminado, de Stephen King, a casa sempre pode estar preenchida de mortais pesadelos insanos, de possibilidades de aproximações de tragédias densas, danosas para todos os seres que estiverem ao seu alcance. As coloridas fantasias dos super-heróis podem, sim, ser manchadas de sangue, de muito sangue, a Grande Inevitabilidade Da Morte ronda tanto os seres do Mundo Da Imaginação, como os personagens da DC que enfrentarão um desafio existencial formidável quanto nós aqui no mundo que consideramos “real”. Pode até ser que a atmosfera dark seja suavizada, mas ela está presente em cada imagem que surge da Blackest Night, um pesadelo que toca na sensibilidade de cada um de nós, nos persegue, nos atinge, pois uma pergunta fica no ar: e se tudo ocorresse em nosso mundo, se fôssemos levados a confrontar os mortos que vieram nos responsabilizar por suas retiradas da vida material?


Zumbis atrás de nós, de todos nós... A mãe que fora há muito... O pai que fora há muito... O irmão que fora há muito... O filho que fora há muito... O primo que fora há muito... O avô que fora há muito... A avó que fora há muito... O tio que fora há muito... A tia que fora há muito... Os amigos que foram há muito... Os inimigos que foram há muito... Imaginem esta atmosfera de sombras em redor, tudo envolvendo, tudo tecendo, tudo movendo... Os zumbis dançantes em nosso redor... Os zumbis insistentes em nosso redor... “Por que nós morremos e vocês estão vivos?”, todos perguntariam... “Por que vocês não morreram junto conosco?”, todos perguntariam... “Por que nós temos que perdoá-los por estarem vivos?”, todos perguntariam... “Por que deixamos de viver para as luzes do mundo e vocês continuam viventes em tais luzes?”, todos perguntariam... “Por que não podemos caminhar junto com vocês de novo aqui neste mundo?”, todos perguntariam... É isso tudo que os personagens da DC enfrentarão na Blackest Night elevado ao infinito, como seria conosco se tal fenômeno ocorresse.






A INFLUÊNCIA DA FILOSOFIA



EUTANÁSIA


Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?

Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?

Escuta: a lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão, as montanhas se azulam no crepuscular da tarde e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela, quem aí na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?

Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas e o beijo frio da doença te azulou nos lábios a tinta do moribundo. E por que te abismas em fantasias profundas, sentado à borda de um fosso aberto, sentado na pedra de um túmulo?

Por que pensá-la... a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara outrora por uns olhos gázeos de mulher?

Sonha!... sonha antes no passado, no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis, em suas luas límpidas e suas estrelas românticas.

O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos, gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...

E quem to disse — que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse — que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores da adolescência? Quem to disse — que a vida não é uma mentira? — que a morte não é o leito das trêmulas venturas?


Álvares de Azevedo



Ouçamos a voz de Sören Aabye Kierkegaard em O Desespero Humano:



"...o desespero é portanto a 'doença mortal', esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a sua morte; e vivê-la um só instante, é vivê-la eternamente. Para que se morresse de desespero como duma doença, o que há de eterno em nós, no eu, deveria poder morrer, como o corpo morre de doença. Ilusão! No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver..."



Há um desespero desesperante e um desespero aspirante quando se tem a noção da Morte dentro de nós, perto de nós ou longe de nós. O desespero desesperante é a primeira reação, é o temor que estremece as colunas d'alma, o terror que se encontra ciente de sua força nas bases d'alma, o horror que pulula gigante no preenchimento de massas d'alma. O desespero aspirante é a ação d'alma após a existência do conhecimento do primeiro desespero, a visão do continuar do desespero agora diante da própria fragilidade d'alma no corpo, da própria fragilidade d'alma no corpo dos outros, da própria fragilidade d'alma no corpo do que não se pode ter a vista de perto ou de longe. Isso tudo é um poço de desesperos, uma formatação de montanhas e montes desesperantes que afugentam, em muitas pessoas, a noção da realidade. Neste exato momento, vemos o desespero pela Gripe A, o desespero provocado por esta pandemia que lota os hospitais brasileiros e está se alastrando pelo Brasil, assim como pelo resto do mundo, com uma velocidade alucinante, causando mortes atrás de mortes. Diante desse aspecto plural de desespero da população mundial frente a uma ameaça invisível e mortal, a importância da Blackest Night se torna muito maior do que se pensa, já que por trás de seus conceitos principais está este medo mais natural que se apresenta em todo humano ser: o de morrer.


As filosofias que tratam da morte, cada uma delas, toca no ponto determinante no qual se pode ter a certeza de que todos nós morremos sozinhos. No entanto, abro espaço para uma contestação no interior deste crescimento da Gripe A pelo mundo e, também, coincidentemente, no interior da temática abordada na Blackest Night: há uma morte coletiva, de toda a Humanidade, quando uma grande crise exterminadora de existências se mistura ao viver comum diário. Mesmo quando um indivíduo morre, desaparecendo a sua personalidade e individualidade neste mundo, a coletividade igualmente perde em potencialidade, em um Ser que contribua para algo, maior ou menor, dentro das suas possibilidades, sendo esse algo bom ou mau, para o crescente aspecto da humana evolução. Tudo pode ser considerado, a partir deste ponto de vista crucial, como participante da História Evolutiva Da Humanidade, já que grandes conflagrações a trazerem grandes misérias, grandes desgraças e grandes desastres, em todos os sentidos, são essencialmente partes de naturais colaborações dos fatos que se sucedem a fim de que os seres todos tomem consciência exata de si mesmos. Não há fim definitivo e nem fim definidor de nada neste Universo ou em qualquer outro Universo, pois tudo, pela Força Imanente E Transcendente Da Mutabilidade, vai adquirindo infinito fortalecimento transformador do Eu dentro da consciência dos que colhem flores entre pedras, flechas, bombas e tiros recebidos do Existir. A constituição de uma filosofia pessoal que assim age não tende a tornar-se agressiva, mas refere-se aos que suportarão a gravidade da situação com o desenrolar de todos os acontecimentos nesta magnífica história, aos que serão verdadeiros homens de aço, às que serão verdadeiras mulheres-maravilha, enfim, aos que cavalgarão como Cavaleiros Das Luzes que estão dentro de si mesmos em meio às Trevas que se erguerão adiante de todos os caminhos e acima de todas as escadarias. As Realidades chocam-se muitas vezes e a do Multiverso DC se choca com a de nosso Multiverso, o que define a similaridade de acontecimentos que ocorrem nos mesmos. Filosoficamente falando, no terreno já da Metafísica, A Vida e A Morte dançam nas Realidades que se apresentam a nós aqui e no Mundo Da Imaginação, Mundo ao qual pertencem todas as obras da Nona Arte e as demais que lidam com formas de entretenimento geradoras de outros universos paralelos, moldando uma infinidade de coisas reais que ganham legitimidade a partir de nossas mentes. Mentes que vivem para morrer. Mentes que morrem para viver.


Na supremacia do que é a Vida está o elemento definidor da Morte. A expressão da Morte vem a encarar-nos a cada passo da intensidade da Vida. Há um sino tocando, o seu som é o do tumulto dos sibilares túneis de montantes assimilantes de pesadelos e de sonhos. Pesadelos Da Vida = Pesadelos Da Morte; Pulsão Da Vida = Pulsão Da Morte. Crânios pressionados contra paredes que explodem, ritmo impulsivo de cânticos que ressoam nos incêndios e nas labaredas do Grande Fogo Do Império Da Morte. Os passos da humana gente guiam sempre pulsantes ao espaço aconchegante de um caixão, a filosofia dos vermes que comem as humanas carnes é digna da humana trajetória dos que vestiram tais carnes. É esse tipo de medo que se encontra atuante nos que estão demasiadamente apegados à sua carne; é esse medo aquilo que constitui a maquinaria de um artefato mais ceifante do que o próprio leito individual de morte de todos os humanos seres: o pensamento. O pensamento que pensa nos vermes comendo a carne. O pensamento que pensa nos vermes dilacerando cada pedaço da carne. O pensamento que faz dos vermes residentes na última morada do corpo seres titânicos invencíveis. O pensamento que faz dos vermes que dançam no fogo do forno crematório o mesmo tipo de seres titânicos. O pensamento nos vermes e no poder dos vermes que se alimentam dos membros desvitalizados. O pensamento dos vermes, chamando-nos para seu mundo abaixo da terra, em nossos caixões, diálogos de predadores para presas. Não podemos escapar de nenhum deles, de nenhum verme que filosofa sobre nossas pessoais caminhadas no caixão, encontrando em cada pedaço de nossas carnes por eles dilaceradas as dialéticas precisas que nos definem em relação ao poder que eles possuem nos dentes, poder que nos afirma inferiores a cada um deles. Não escapamos dos caixões e nem dos fornos crematórios, muito menos dos vermes que nos aguardam; e esse pensamento é o que desespera ainda mais os vaidosos e os apegados em demasia ao que se apresenta de sedutor e atrativo neste mundo. Não escapamos dos filósofos máximos de todas as covas: todos os vermes que roerão as nossas carnes até não sobrar nada. Não escapamos, e tal pensamento atordoante e atormentador vai vos torturar a cada página que for lida desta saga que também segue a filosofia dos vermes que nos devorarão, uma saga que quer devorar-nos para que tenhamos a noção de que pensar apegadamente em tudo que aqui ficará significa tornar-se um zumbi fora do tempo de descanso da carcaça na cova.


O pensamento que chega tende a matar o pensamento que se apega. O apego é o veneno que traz ao luto o sentimento da maior das misérias. Nisto, a Blackest Night encontra um suprasentido espetacular, uma fundação de sólidas bases nos ritmos que transitam no, antes de tudo, miserável apego à Vida, esta Vida aqui, com "V" maiúsculo a representar um túmulo para os que querem apenas permanecer na Matéria. Ao darem vitalidade a carnes e ossos putrefatos, Os Mistérios Da Morte, mais do que simplesmente fundarem um inumerável exército de zumbis, reafirmam A Filosofia Da Vontade de Arthur Schopenhauer: A Vontade movente da morta carne, A Vontade movente dos mortos ossos. O Eterno Retorno de Friedrich Nietzsche igualmente pode estar afinado com o filosófico sentido da magnífica temática da Blackest Night: O Eterno Retorno de todos os amores, O Eterno Retorno de todos os ódios, O Eterno Retorno de todos os sonhos, O Eterno Retorno de todos os pesadelos, O Eterno Retorno de todos os pesadelos, O Eterno Retorno de todos os medos. E até a primazia da experiência tão decantada na Crítica Da Razão Pura por Immanuel Kant pode ser guiada até as labirínticas propriedades do argumento da história: a experiência da infinitude do medo que pulsa para compreender o medo, a experiência da infinitude de pesadelos que retornam para compreender os pesadelos, a experiência da infinitude de sonhos que retornam para compreender os sonhos, a experiência da infinitude dos ódios que retornam para compreender os ódios, a experiência da infinitude dos amores que retornam para compreender os amores. O Espírito, então, habilita em si todos os bons e maus resultados desses impactos impiedosos. No entanto, apenas os espiritualmente mais sólidos poderão a tudo verdadeiramente assimilar para continuar a sobreviver, seja no Universo DC, seja aqui no mundo nosso abraçado pela Gripe A. E, sobre isso, o Espiritualismo tem muito a declarar.






A INFLUÊNCIA DO ESPIRITUALISMO



LEMBRANÇA DE MORRER


No more! O never more!

SHELLEY


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.


E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.


Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto o poento caminheiro...

Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro...


Como o desterro de minh’alma errante,

Onde fogo insensato a consumia,

Só levo uma saudade — é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade — e dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas...

E de ti, ó minha mãe! pobre coitada

Que por minhas tristezas te definhas!


De meu pai... de meus únicos amigos,

Poucos, — bem poucos! e que não zombavam

Quando, em noites de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei!... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!


Ó tu, que à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se vivi... foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu! eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz! e escrevam nela:

Foi poeta, sonhou e amou na vida. —


Sombras do vale, noites da montanha,

Que minh’alma cantou e amava tanto,

Protejei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe um canto!


Mas quando preludia ave d’aurora

E quando, à meia-noite, o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri as ramas...

Deixai a lua pratear-me a lousa!




A autoridade de Charles Webster Leadbeater nos diz em O Que Há Além Da Morte:



O conhecimento das verdades relativas à morte faz desaparecer a um só tempo o terror e a ansiedade; o homem devidamente instruído neste ponto, considera a morte como um passo da vida, e convence-se de que a existência de ultra-tumba não é mais temível que a terrena. O temor nasce, não tanto de vislumbrar algo espantoso, porém mais da incerteza e horror a um abismo sem fundo. Quando esta falsa crença é substituída por um conhecimento definido de tudo quanto se relaciona com o mundo astral, o homem sente confiança em si e está disposto a enfrentar altivamente o seu destino. A convicção de que os mundos superiores são regidos por leis idênticas às do nosso, põe-nos em contato mais íntimo com eles e nos habitua a encará-los como nossa própria residência. Temos então a certeza de que em todos os mundos estamos igualmente sujeitos ao mesmo poder, e que, portanto, nós e nossos parentes tem a mesma segurança em todos.



Mais adiante, acerca da ignorância do que ocorre no Pós-Morte, há uma afirmação que denota uma grandiosidade especial da parte daqueles que conseguem compreendê-la:



Não é raro dissimularmos nossa ignorância assegurando dogmaticamente que nada se pode saber da vida depois da morte, e a maneira de considerarmos este problema é um dos piores exemplos que damos ao mundo. Se a teologia não estivesse se desviando quase totalmente, por infelicidade, da doutrina da reencarnação, muito outra teria sido a idéia popular sobre a morte. O homem convencido de que morreu muitas vezes antes de sua presente existência, olha este trespasse muito mais filosoficamente do que quem o considera uma experiência absolutamente nova e sobrecarregada de pavorosas contingências.



Seja aqui neste mundo nosso ou no Universo DC ou qualquer Universo do Mundo Da Imaginação, a ignorância humana é bastante grandiosa em relação aos Mistérios Da Morte. Há ignorância fecunda, profunda, insistentemente irrealizadora d'alma, plenamente incentivadora de cegueiras espirituais várias. A grande jogada da Blackest Night, na brilhante mente de Geoff Johns, está na intenção de fazer-nos ter uma nítida idéia mui real acerca de dita ignorância. Geralmente, como possuimos em alguma época de nossas Existências, a atual e as anteriores, idéias infantis acerca do Pós-Morte, essas lembranças podem sobreviver ou morrer definitivamente em nós; e se, no entanto, a inocência se transfere para outro tipo de ilusão, como, por exemplo, a de alguns jovens se sentirem “belos e imortais”, agindo arrogantemente em relação ao comum viver, maltratando os idosos e pensando que nunca envelhecerão, enfraquecerão e beijarão A Foice empunhada por Tanatos? Não precisamos de avançados conhecimentos espiritualistas, e até filosóficos, para chegarmos à conclusão de que nós, ao desencarnarmos, não iremos para nenhum “Paraíso” ou “Inferno” a não ser os vários Paraísos e Infernos que criamos dentro de nossas almas conforme as nossas ações em pensamento ou plenamente materializadas. Isto quer dizer que tanto os heróis quanto os vilões e as pessoas comuns que criaram os seus Paraísos e Infernos retornarão desejosos de uma vingança contra os que aqui ficaram relacionada a essas internas criações. E se na história envolvendo o retorno de todos os que se foram isso está bem nítido, podemos contar com um conteúdo MUITO MAIS PRÓXIMO DA NOSSA HUMANA REALIDADE DO QUE QUALQUER OUTRA CRIAÇÃO DOS QUADRINHOS QUE JÁ TENHA SIDO FEITA!!!


Esqueçamos The Dark Knight, Watchmen e tantas outras obras-primas dos Quadrinhos e pensemos, desde já, que a Blackest Night representa um grande marco na Nona Arte, grande marco mais próximo de nossas almas do que todas as demais altas criações da mesma, já que toca em nossas crenças, descrenças e tudo o mais relativo ao desencarnar. Acerca disto, mais uma brilhante afirmação do sempre sensato Leadbeater naquele mesmo livro:



Os sacerdotes de qualquer religião nos explicarão à sua maneira a vida póstuma do homem, e em apoio de suas afirmações aduzirão a doutrina da Igreja e os textos da Bíblia; porém, nenhum deles poderá dizer: “Eu próprio estive no céu ou no inferno que vos descrevo. Vi isto por meus próprios olhos e sei que é verdade”. É precisamente isto que os investigadores teosóficos podem afirmar, pois estão familiarizados com uma definida série de fatos que observam pessoalmente a ponto de poderem falar com autoridade e certeza próprias, por conhecimento direto. Conseqüentemente, ao comunicar o que sabem, sempre dirão aos seus ouvintes: “A menos que vos pareçam evidentemente razoáveis, não deveis admitir às cegas nossas afirmações, porém observai por vós mesmos todas estas coisas tão atentamente quanto puderdes, em seus vários aspectos, e então estareis em condições de falar delas aos demais e com tanta autoridade quanto nós”. Porém, que espécie de fatos descobriram nestas investigações?



E o que cada um de vós podeis descobrir por vossas próprias investigações que não precisam, no entanto, ser tão avançadas ou possuir a autoridade máxima de uma conduta espiritualista qualquer? Uma conduta de vosso próprio Espírito, de vosso próprio Ser, lendo e meditando acerca do que virá a fazer parte das edições que tratarão da Blackest Night?


Nenhuma morte se configura mais digna do que a referente ao eliminar das ilusões acerca do que ainda se sabe bem pouco. Este artigo visou esclarecer a Blackest Night acerca do ponto de vista de um Coveiro possuidor de uma Espiritualidade e de uma Filosofia próprias, que não se julga superior e nem senhor da verdade. Aqui está, apenas, uma interpretação do que o Inominável Ser que eu sou Vê do altíssimo e elevado conteúdo desta já obra-prima dos Quadrinhos. Interpretação concluída ao som de Crystal Mountain, do Death.


Excelente leitura tenham em vossas covas, cadáveres leitores!


Excelente leitura Ouvindo O Som De Poderosas Asas...


Saudações Inomináveis a todos vós, cadáveres leitores!






Checklist



Julho de 2009

00 - Green Lantern #43 (Prólogo)

01 - Blackest Night #00

02 - Blackest Night #1

03 - Blackest Night: Tales of the Corps #1

04 - Blackest Night: Tales of the Corps #2

05 - Blackest Night: Tales of the Corps #3

06 - Green Lantern #44


Agosto de 2009

07- Blackest Night #2

08 - Green Lantern #45

09 - Green Lantern Corps #39

10 - Blackest Night: Batman #1 de #3

11 - Blackest Night: Superman #1 de #3

12 - Blackest Night: Titans #1 de #3


Setembro de 2009

13 - Blackest Night #3

14 - Green Lantern #46

15 - Green Lantern Corps #40

16 - Blackest Night: Batman #2 de #3

17 - Blackest Night: Superman #2 de #3

18 - Blackest Night: Titans #2 de #3


Outubro 2009

19 - Blackest Night #4

20 - Green Lantern #47

21 - Green Lantern Corps #41

22 - Blackest Night: Batman #3 de #3

23 - Blackest Night: Superman #3 de #3

24 - Blackest Night: Titans #3 de #3



Para baixar:


Darkseid Club - A Noite Mais Densa



Tropa BR 2.0 - A Noite Mais Densa




BIBLIOGRAFIA



Azevedo, Álvares de. Lira dos Vinte Anos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção Poetas do Brasil)/Versão digitalizada efetuada pela Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro


Leadbeater, Charles Webster. O Que Há Além Da Morte? Tradução de Cinira Riedel de Figueiredo; Editora Pensamento, São Paulo, 1974.


Kierkegaard, Sören Aabye. O Desespero Humano (Doença até a Morte). Tradução de Adolfo Casais Monteiro, 3ª Edição, Lisboa: Guimarães, 1952.


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3 Ossos Lançados:

† Lord Madrugoth † disse...

Oh tu talento que presenteia-nos com tão infindáveis informações, venho a ver as histórias em quadrinhos as quais doravante vem a calhar em momentos de descontração e saúdo vosso post que com uma grandeza descomunal mostrou as várias facetas do Goticismo, aceite meus humildes porém sinceros agradecimentos e verdadeiras congratulações, se não for pedir muito e puderes visite meu blog que ainda sendo de humor sei não ser da relevância do seu, mas adoraria vossa presença por lá

Lord Madrugoth

† Lord Madrugoth † disse...

Se vós quiserdes acompanhar meu humilde blog este que a tí se apresenta saiba que serás bem vindo a minha casa onde o humor convive com as sombras e se me acompanhardes em meu blog tornarei-me vosso assíduo seguidor nesse tortuoso e inóspito caminho de escuridão
Hail! Guerreiro incessante da escuridão, acompanhe me em minha jornada, já estou a acompanhar vosso blog com profunda satisfação e extasiado com o talento por vós demonstrado.

Inominável Ser disse...

Agradeço pelo comentário, Lord Madrugoth. mas apesar do humor presente em vosso blog, gostei do tom de crítica que o mesmo assume veladamente, contra os posers que existem por aí. Vou pôr o vosso blog na lista das Covas Recomendáveis e o acompanharei também, assim como o banner do mesmo, formando entre nós uma Parceria.

Me desculpe pela demora em responder-lhe.

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Este é o blog do Projeto Companhia De Organizadores De Viagens Abissais (C.O.V.A.), o qual é totalmente voltado para a Arte Sombria, em suas manifestações através da Poesia, Literatura, Pintura, Desenho, Ilustração, Arte Digital, Música, Escultura, Arquitetura, Cinema e novas expressões artísticas e intelectivas que a todo o momento brotam das mentes dos que abordam tal temática. Com o intuito de reunir o máximo possível de artistas e interessados na mesma, então, aqui fundo este blog para divulgar o trabalho realizado nas páginas de mesmo nome existente no Forumeiros, além da elaboração de postagens com assuntos que não está no mesmo disponível.



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