15 de fevereiro de 2009

Marquês de Sade - In: 28 de setembro de 2007





“(...)DOLMANCÉ - Suponho que Eugênia esteja agora completamente libertada da estupidez
religiosa. Saiba que jamais terão consequência os atos que zombarem de tudo quanto constitui o
culto dos imbecis. Essas fantasias aquecem as cabecinhas jovens para as quais toda a violação
de freios é um gozo; volúpias que se tomam frias quando já se teve tempo de estudar, de se
instruir, de se convencer da nulidade desses ídolos que escarnecemos. Profanar relíquias,
imagens de santos, a hóstia, o crucifixo, tudo isso aos olhos do filósofo é o mesmo que degradar
estátuas do paganismo. Toda essa baboseira só deve merecer nosso desprezo; só devemos usar a
blasfêmia, embora nem essa tenha serventia. Pois, desde que Deus não existe, o que adianta
insultá-lo? Mas é essencial e agradável pronunciar nomes sujos e fortes para aumentar a
embriaguez do prazer, para auxiliar a imaginação, não poupemos coisa alguma para essa
finalidade, tenhamos o luxo de expressões que escandalizem o mais possível. É tão doce
escandalizar... Triunfo do orgulho que não se deve desprezar! É uma das minhas secretas
volúpias; há poucos prazeres morais que influam mais na minha imaginação. Experimente,
Eugênia e verá o resultado: ostente a mais prodigiosa impiedade quando em companhia de
moças de sua idade, ainda envoltas nas trevas da superstição, ostente o deboche; a libertinagem;
porte-se como puta, mostre os peitos, levante as saias se forem juntas à privada, ponha à mostra
as partes mais secretas do seu corpo e exija reciprocidade. É preciso seduzi-Ias, fazer-lhes
sermão ridicularizando os seus preconceitos. Induza-as ao que se chama erradamente de mal,
blasfeme como um carroceiro, agarre-as à força, corrompa-as por conselhos e exemplos,
perverta-as, seja extremamente livre com os homens, fale de irreligião, de safadagem, conceda
tudo quanto a divirta sem a comprometer, masturbe e seja masturbada, empreste-lhes o cu. Uma vez casada, não tenha amante, pague criados jovens e discretos, assim tudo ficará secreto. Sua reputação continuará intacta, ninguém suspeitará. Eis a arte de fazer tudo quanto nos apraz.
Continuemos.

Os prazeres da crueldade são os terceiros que prometemos analisar. Muito comuns entre os
homens de hoje, eis os argumentos dos quais se servem para legitimá-los: o alvo das pessoas
que se entregam à volúpia é ficarem excitadas; queremos nos excitar por meios mais ativos;
assim sendo, pouco nos importa se nossos procedimentos agradarão ou não ao objetivo que
serve; só se trata de pôr em movimento a massa dos nossos nervos pelo choque mais violento
possível. Ora, como a dor afeta mais vivamente que o prazer, o choque resultante dessa
sensação produzida sobre o parceiro será de vibração mais vigorosa e repercutirá mais
energicamente em nós; o espírito animal entrará em circulação e inflamará os órgãos da volúpia
predispondo-os ao mais intenso prazer. Ora, os efeitos do prazer são mais difíceis na mulher, um
homem feio ou velho jamais logrará produzi-los; por isso preferem a dor, cujas vibrações são
mais ativas. Objetarão certamente: os homens que têm essa mania não refletem que é falta de
caridade fazer sofrer o próximo, sobretudo para obter maior gozo? É que, nesse ato, os canalhas
só pensam em si próprios, seguem o impulso da natureza e desde que gozem bastante o resto
não lhes importa, nunca sentimos as dores alheias. Pelo contrário, ver sofrer, é uma grande
sensação. Para que poupar um indivíduo com o qual não nos importamos? Essa dor não nos
custará uma só lágrima e nos ocasionará um prazer. Haverá na natureza um só impulso que nos
aconselhe preferir o próximo a nós mesmo?

Cada um de nós não é para si mesmo o mundo inteiro, o centro do universo? Nem me
falem na voz quimérica que diz "não façais aos outros o que não quereis que se vos faça".
Grandes imbecis! A natureza não nos aconselha outra coisa senão que gozemos, que nos
divirtamos; não conhecemos outro impulso, outra aspiração. Nunca devemos nos incomodar
com o que pode suceder aos outros... A natureza é a nossa mãe e só nos fala de nós mesmos, sua
voz é a mais egoísta. O mais claro conselho que nos dá é que tratemos de gozar, de nos deleitar,
mesmo a custo de quem quer que seja! Os outros nos podem fazer o mesmo, é verdade, mas o
mais forte vencerá. A natureza nos criou para o estado primitivo de guerra, de destruição
perpétua, único estado em que devemos permanecer para realizar seus fins.

Eis, querida Eugênia, como raciocinam os libertinos; acrescento por experiência, por
estudos particulares, que a crueldade, longe de ser um vício, é o primeiro sentimento que a
natureza imprime no homem. A criança quebra seus brinquedos, morde o mamilo da ama, e
estrangula pássaros muito antes de atingir a idade da razão. Todos os animais respiram
crueldade, pois neles as leis da natureza são ainda mais fortes que no homem, assim como nos
selvagens elas falam mais alto ainda do que no homem da cidade. Nascemos com uma dose de
crueldade que só a educação consegue modificar, mas a educação nada tem a ver com a
natureza, pelo contrário, é nociva a ela como a cultura é nociva às árvores. Compare nos nossos
pomares a árvore que cresce livre com as árvores podadas e cuidadas artisticamente. Qual a
mais bela, a que oferece melhores frutos? A crueldade é a energia do homem que a civilização
ainda não corrompeu, é, portanto, uma virtude e não um vício. Tiremos as leis, os usos, e a
crueldade não terá mais efeitos perigosos, nunca agirá sem poder ser afastada pelas mesmas
armas. Só é perigosa no estado de civilização porque o ser lesado não tem força, ou meios, para
vingar a injúria. No estado de incivilização, se ela age sobre o forte será por ele sobrepujada, se
age sobre o fraco não tem o menor inconveniente, pois o fraco deve ceder ao forte pelas leis
dessa mesma natureza.

Não analisaremos a crueldade nos prazeres lúbricos do homem. Verá, linda Eugênia, os
diferentes excessos aos quais ele se entregou; sua imaginação ardente compreenderá logo que,
nas almas fortes e estóicas, essa crueldade não deve ter limites. Nero, Tibério e Heliogábalo
imolavam meninos para ficarem de pau duro; o marechal de Retz, Charolais, o tio de Condé
cometeram assassínios em lúbricas orgias. O primeiro confessou no seu interrogatório que não
conhecia volúpia mais deliciosa do que supliciar crianças de ambos os sexos; acharam mais de
oitocentas, imoladas nos seus castelos da Bretanha. Tudo isso se concebe perfeitamente, como
acabei de demonstrar. Nossa constituição, nossos órgãos, o curso dos humores, a energia dos
espíritos animais, eis as causas, físicas que criaram Titos ou Neros, as Messalinas ou as Chantal.
Não há motivo algum da gente se orgulhar da virtude, nem de se arrepender do vício, assim
como é inútil acusar a natureza de ter criado um justo ou um facínora; ela terá agido segundo
seus planos aos quais nos devemos submeter. Examinemos a crueldade das mulheres, bem mais
ativa que a dos homens, em razão do poder excessivo da sensibilidade de seus órgãos.

Nós distinguimos, em geral, duas espécies de crueldade: a que nasce da estupidez que,
sem razão e sem análise, assimila o indivíduo às feras, não produz prazer algum; é apenas uma
inclinação natural; as brutalidades por ela causadas não são perigosas, pois é fácil delas nos
defendermos. A outra. espécie de crueldade, fruto da extrema sensibilidade dos órgãos, não é
conhecida senão pelos seres extremamente delicados; é uma delicadeza extrema e refinada que
põe em movimento todos os recursos da maldade. Poucas pessoas podem perceber tais
diferenças, poucas a podem sentir; entretanto, elas existem. É este segundo gênero de crueldade
que mais se encontra entre as mulheres; são conduzidas por excesso de sensibilidade, a força do
espírito torna-as ferozes; por isso mesmo são encantadoras, fazem todos perderem a cabeça por
elas. Infelizmente a rigidez absurda dos nossos costumes deixa pouco terreno a essa crueldade,
obrigando-as a se esconder, a dissimular, a cobrir suas inclinações naturais por atos ostensivos
de beneficência que elas no fundo odeiam. É apenas veladamente, com precaução, auxiliadas
por amigos certos, que conseguem satisfazer seus desejos, coitadinhas! Se quisermos
conhecê-las será preciso vê-Ias assistindo a um duelo, um incêndio, um combate, uma batalha;
mas tudo isso é pouco para elas e as coitadas têm que se conter.

Falemos de algumas mulheres desse gênero: Zíngua, rainha de Angola, a mais cruel das
mulheres, imolava seus amantes logo depois de gozá-los; assistia combates entre guerreiros,
entregando-se ao vencedor; para se distrair fazia moer num pilão todas as mulheres que
tivessem engravidado antes dos trinta anos'. Zoé, mulher dum imperador chinês, não sentia
prazer maior do que assistir à execução de criminosos; se não os houvesse, imolava escravas
enquanto era fodida, e tanto mais gozava nesse instante quanto mais as infelizes sofriam; foi
inventora da famosa coluna de bronze oca que fazia aquecer em brasa. depois de aí ter encenado
a vítima. Teodora, mulher de Justiniano, adorava presenciar à castração dos eunucos. Messalina
se fazia punhetar enquanto, pelo processo da masturbação, seus escravos extenuavam vários
homens diante dela. As floridianas faziam engrossar o membro dos maridos colocando sobre a
glande pequenos insetos venenosos, amarravam-nos para essa operação e reuniam-se em grupo
para efetuar essa operação mais rapidamente. Quando os espanhóis chegaram a esse país, elas
próprias agarravam os maridos para que fossem assassinados pelos conquistadores. La Voisin,
La Brinvilliers, envenenavam apenas por prazer. A história fornece milhares de exemplos da
crueldade feminina, acho que por isso elas se deixavam ser flageladas, o que causa grande
prazer ao homem. Seria uma válvula natural à crueldade das mulheres, e a sociedade com isso
ganharia, pois não podendo expandir-se desse modo, elas inventam mil outros modos piores
para derramar o veneno que as habita, fazendo o desespero dos pobres maridos e da família
inteira. A maior parte delas recusa sempre a fazer uma boa ação quando se apresenta a ocasião
de socorrer algum infortúnio, mas essa válvula não chega para tanta maldade. Elas precisam
exercer maldades maiores. Haveria, sem dúvida, outros meios para lhes contentar a malvadez
inata, mas não sei se eu poderia aconselhá-lo... Que tem você, menina? Em que estado está!
EUGÊNIA, masturbando-se - É o efeito de todas essas suas histórias!(...)”

in: A Filosofia Na Alcova – Terceiro Diálogo – pags. 30-32


Escritor francês. Nasceu aos 2 de junho de 1740 em Paris. De nobre família, passa a sua infância em Provença e em seguida estuda no Colégio Louis le Grand, em Paris. Em 1754 se alista nos "Chaveaux-Légers", chegando a ser Subtenente do Regimento do Rei. Distingue-se por sua valentia na Guerra Dos Sete Anos, indo a Capitão. Retornando a Paris, entrega-se a uma vida libertina. Seu pai, desejoso de regenerá-lo, casa-o com Madame de Montreuil, filha do presidente da "Cour des Aides", quando é notório que está enamorado de sua cunhada.

Pouco depois, com a morte do pai, herda o título e fortuna, retornando à vida desregrada. Logo dá o seu primeiro escândalo, porém a família logra libertá-lo, e seu sogro o faz abandonar a Provença, quando então ele se apresenta no castelo de Coste com uma atriz que se faz passar por sua mulher. No entanto, sua esposa real tira sua irmã do convento onde ela se encontrava e passa a viver com a mesma numa propriedade de Saumane, perto de Vaucluse. O marquês não tarda a aparecer ali, disposto a raptá-la, mas combatido violentamente segue para Marselha, onde leva uma vida devassa criando complicações de diversas ordens.

É processado em Aix. Apresenta-se junto de sua cunhada e a ameaça de morte, caso ela não o acompanhe, levando-a por conseguinte à Itália. O Parlamento decreta que ele seja queimado. Pouco depois morre a sua amante de forma violenta e o marquês retorna a Paris, onde é encarcerado em Vincennes e depois na Bastilha. Sua mulher lhe dá roupas e alimentos, enquanto que ele se entrega a compor escritos eróticos.

O Governador impede que levem a cabo a sentença de sua morte, quando então ele é enviado para o manicômio de Charenton. É posto em liberdade em 1790 como vítima da tirania. O seu sistema de vida leva-o novamente para a cadeia, de onde sai com a reação termidoreana. Durante o Diretório, escreve peças de teatro, completamente imorais, e, no entanto, encontra um capitalista que as imprime com elegância.

O Primeiro Cônsul, ao lê-las, se apavora. Napoleão requisita uma edição clandestina de suas obras e o faz retornar a Charenton, onde passa os últimos anos de sua vida escrevendo comédias para os loucos.

Entre suas obras eróticas se destacam: Justine, Crimes D'Amour e Idées Sur Les Romains, que não são desprovidas de talento.

in: Dicionário Internacional De Biografias - pag. 970


Publicado originalmente em: Marquês de Sade - Projeto C.O.V.A.
Share:

0 Ossos Lançados:

Tecnologia do Blogger.

Sobre Esta Cova







Inomináveis Saudações a todos!



Este é o blog do Projeto Companhia De Organizadores De Viagens Abissais (C.O.V.A.), o qual é totalmente voltado para a Arte Sombria, em suas manifestações através da Poesia, Literatura, Pintura, Desenho, Ilustração, Arte Digital, Música, Escultura, Arquitetura, Cinema e novas expressões artísticas e intelectivas que a todo o momento brotam das mentes dos que abordam tal temática. Com o intuito de reunir o máximo possível de artistas e interessados na mesma, então, aqui fundo este blog para divulgar o trabalho realizado nas páginas de mesmo nome existente no Forumeiros, além da elaboração de postagens com assuntos que não está no mesmo disponível.



Bem-vindos, Coveiros e visitantes!



Bem-vindos, cadáveres leitores!



Saudações Inomináveis a todos!



Inominável Ser

O COVEIRO

ADMINISTRADOR



Os Escribas Coveiros

Enterram-Se Nesta Cova:

Blog Archive

Labels

Covas Recomendáveis

Parcerias

Meu Perfil No Facebook

Lápides Eternamente Inderrubáveis

Recent Posts

Unordered List

Inomináveis Saudações! Escolham um de nossos banners e tornem-se Parceiros do Projeto C.O.V.A., enviando-nos o banner e o link de vosso trabalho para este endereço de e-mail: projetocova@gmail.com Design por Laracna D'Angels

Theme Support