8 de fevereiro de 2009

Castro Alves - In: 24 de setembro de 2007



"Vuela, vuela el cóndor
la inmensidad, sombra de la altipampa.
Sueño de la raza americana,
sangre de la raza indiana."

Daniel A. Robles, "El
cóndor pasa"

"A praça Castro Alves é do povo
como o céu é do avião."

Caetano Veloso


Antônio Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847, no município de Curralinho, Bahia. Após os primeiros estudos na Bahia, segue para Recife junto com o irmão José Antônio, onde vive experiências que marcariam sua vida: os primeiros sintomas de doença pulmonar; o início de seu romance com a atriz portuguesa Eugênia Câmara; o desequilíbrio mental do irmão.

Em 1864, o poeta inicia seu curso jurídico e ocorre o suicídio de José Antônio. Em 1867 abandona definitivamente Recife; na Bahia, a apresentação do drama Gonzaga ou A Revolução de Minas traz a consagração popular do poeta e de Eugênia.

Um ano depois chega a São Paulo, acompanhado de Eugênia Câmara e do colega Rui Barbosa; requer matrícula no 3º ano da faculdade de Direito do Largo de São Francisco. A 7 de setembro, na sessão magna comemorativa da Independência, declama pela primeira vez o poema "Navio Negreiro". Ao final do ano, fere acidentalmente o pé com uma arma de fogo que carregava a tiracolo durante uma caçada.

Em 1869 amputa o pé em conseqüência do ferimento e se retira para a Bahia; lá sobrevém o agravamento da doença pulmonar. No dia 6 de julho de 1871, às 3h30min da tarde, falece o poeta, junto a uma janela banhada de sol, como era seu último desejo.

Enquanto os poetas da primeira geração romântica se ocupavam de conflitos íntimos, frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao eu, Castro Alves, poeta da última geração, educado pela literatura de Victor Hugo, tem horizontes mais amplos, interessando-se não apenas pelo eu (como bom romântico, Castro Alves cultivou o egocentrismo), mas também pela realidade que o rodeava, num processo de universalização, cantou o amor, a mulher, a morte, o sonho, cantou a República, o abolicionismo, a igualdade, as lutas de classe, os oprimidos. Teve muitos amores, amou e foi amado por várias mulheres, mas, como bem lembra Jorge Amado no seu ABC de Castro Alves, a maior de todas as suas noivas foi a Liberdade.

Se o poeta já respirava os primeiros ares da nova escola literária que negaria o Romantismo, apresentando em sua temática tendências realistas, é perfeitamente romântico na forma, entregando-se a alguns exageros nas metáforas, comparações grandiosas, antíteses e hipérboles, típicos do condoreirismo.

A poesia lírico-amorosa de Castro Alves evolui de um campo de idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos; agora temos uma mulher de carne e osso, sensual, individualizada em Eugênia Câmara. Esta paixão torna-o às vezes irreverente:

"amar-te é melhor que ser Deus"

e, às vezes, desesperadamente eufórico, arrebatado pela realidade material:

"Mulher! Mulher! Aqui tudo é volúpia."

Entretanto, convivendo com esse sensualismo adulto, encontramos o adolescente meigo, terno, de metáforas líricas:

"Tua boca era um pássaro escarlate."

Às vezes é afável prisioneiro de imagens eróticas:

"Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite!... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

(...)

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!"

Por outro lado, o tempo de Castro Alves assistiu a grandes transformações sociais: no plano internacional, a Questão Coimbra em Portugal, o Positivismo de Comte, o Socialismo Científico de Marx e Engels, o Evolucionismo de Darwin e as primeiras lutas operárias; no plano interno, a decadência da Monarquia, a luta abolicionista, a Guerra do Paraguai e o pensamento republicano.

Este é o momento histórico que viria a refletir-se e explodir nas manifestações dos jovens acadêmicos de Direito, no Recife e em São Paulo:

"A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor."

É esta liberdade, o condor voando nos picos andinos, o povo na praça, que vai marcar a poesia social de Castro Alves, denunciadora das grandes desigualdades:

"Quebre-se o cetro do papa,
Faça-se dele uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
p'ra cobrir os ombros nus."

Todavia, Castro Alves tornou-se célebre por sua obra sobre a escravidão. Na realidade, o pota buscava um grande ideal democrático, a solução de todos os problemas vividos pelo país: a República. Portanto, importante era a derrubada da Monarquia e de suas instituições, como, por exemplo, o trabalho escravo; a luta abolicionista do poeta, sob esse prisma, faz parte de um contexto mais amplo. Mas foi justamente nos versos acerca dos escravos que o poeta alcançou maior sucesso, pois aí encontram-se admiravelmente fundidas a efusão lírica e a eloqüência condoreira, como bem atestam os poemas "Vozes d'África", "Canção do africano", "Saudação a Palmares", "Tragédia no lar" (de grande carga dramática e emotiva) e "Navio negreiro".

in: Literatura Brasileira - Das Origens Aos Nossos Dias
José de Nicola - pags. 85-88


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