8 de fevereiro de 2009

Álvares de Azevedo - In: 23 de Julho de 2008



BIOGRAFIA


"Foi poeta - sonhou - e amou na vida."

Álvares de Azevedo


LÉLIA

Passou talvez ao alvejar da lua,
Como incerta visão na praia fria...
Mas o vento do mar não escutou-lhe
Uma voz a seu Deus!...ela não cria!

Uma noite, aos murmúrios do piano
Pálida misturou um canto aéreo...
Parecia de amor tremer-lhe a vida
Revelando nos lábios um mistério!

Porém, quando expirou a voz nos lábios,
Ergueu sem pranto a fronte descorada,
Pousou a fria mão no seio imóvel,
Sentou-se no divã... sempre gelada!

Passou talvez do cemitério à sombra
Mas nunca numa cruz deixou seu ramo,
Ninguém se lembra de lhe ter ouvido
Numa febre de amor dizer: “eu amo!”

Não chora por ninguém... e quando, à noite,
Lhe beija o sono as pálpebras sombrias
Não procura seu anjo à cabeceira
E não tem orações, mas ironias!

Nunca na terra uma alma de poeta,
Chorosa, palpitante e gemebunda
Achou nessa mulher um hino d’alma
E uma flor para a fronte moribunda.

Lira sem cordas não vibrou d’enlevo,
As notas puras da paixão ignora,
Não teve nunca n’alma adormecida
O fogo que inebria e que devora!

Descrê. Derrama fel em cada riso,
Alma estéril não sonha uma utopia...
Anjo maldito salpicou veneno
Nos lábios que tressuam de ironia.

É formosa contudo. Há dessa imagem
No silêncio da estátua alabastrina
Como um anjo perdido que ressumbra
Nos olhos negros da mulher divina.

Há nesse ardente olhar que gela e vibra,
Na voz que faz tremer e que apaixona
O gênio de Satã que transverbera,
E o langor pensativo da Madona!

É formosa, meu Deus! Desde que a vi
Na minh’alma suspira a sombra dela...
E sinto que podia nesta vida
Num seu lânguido olhar morrer por ela.




Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu a 12 de setembro de 1831, na capital paulista. Em 1848, matricula-se na Faculdade De Direito e inicia um período de intensa produção poética, ao mesmo tempo em que se manufestam os primeiros sintomas de tuberculose. A partir de 1835 tem verdadeira fixação pela idéia da própria morte, deixando-a clara em várias cartas à mãe, à irmã e amigos. Morre a 25 de abril de 1852.

Álvares de Azevedo foi responsável pelos contornos definitivos do "mal do século" em nossa literatura, produzindo uma obra influenciada por Lord Byron, de quem foi leitor assíduo e tradutor, e por Musset, de quem herdou as características do spleen - o sarcasmo, a ironia e a autodestruição. Suas poesias falam de amor de morte, de um amor sempre idealizado, irreal, povoado de donzelas ingênuas, virgens sonhadas, filhas do céu, mulheres misteriosas (seria melhor dizer vultos), que habitam seus sonhos adolescentes mas nunca se materializam. Daí a frustação, o sofrimento, a dor só acalmada pela lembrança da mãe e da irmã.

A morte foi presença constante: a morte prematura de seu irmão; a morte de seus colegas de faculdade; a "dor no peito" que cedo o levaria. E é essa presença da morte, numa contradição compreensível, que mais lhe atiça a vontade de viver. Entretanto, cumpre salientar que Álvares de Azevedo também assume a conotação de fuga, como fruto de uma sensação de impotência diante do mundo conturbado.

Noite Na Taverna, livro de contos fantásticos, constitui um dos mais significativos exemplos da literatura "mal do século". É um livro em prosa, onde seis estudantes, bêbados, narram suas aventuras mais estranhas: são histórias marcadas por sexo, bacanais, incestos, assassinatos, traições, mistérios e morte.

O poeta faz uma "tentativa para o teatro" com um drama intitulado Macário, obra confusa, como afirma o próprio autor: "esse drama é apenas uma inspiração confusa, rápida, que realizei à pressa, como um pintor febril e trêmulo". O texto nos apresenta um jovem chamado Macário, estudante de Direito, poeta, que vive uma dualidade: ora irônico e macabro, ora meigo e sentimental - ou seja, o próprio Álvares, anjo e demônio.

in: Literatura Brasileira - Das Origens Aos Nossos Dias
José de Nicola
pags. 83/84


OBRAS:

POESIA: Lira Dos Vinte Anos.

CONTO: Noite Na Taverna.

TEATRO: Macário.


Um tópico em Literatura, para a apreciação da prosa deste grandioso e talentosíssimo autor brasileiro, que em tudo me influencia em minha própria forma de poetizar, como o Lord Byron, citado na biografia resumida acima, será aberto. Iniciaremos uma aprofundadora viagem, aqui, pelos poemas dele presentes em Lira Dos Vinte Anos. A Álvares de Azevedo, então, pedimos permissão para a leitura e apreciação dos mesmos.

Toquem as vossas liras, Coveiros e visitantes!


Publicado em: Álvares de Azevedo - Projeto C.O.V.A.

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