15 de fevereiro de 2009

Alessandro Reiffer - In: 1º de março de 2008




Inomináveis Saudações a todos.

Acima, a capa do livro de Alessandro Reiffer lançado em 2006, Contos Do Crepúsculo E Do Absurdo. A capa do livro é uma ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para o livro Paraíso Perdido (1667), de John Milton (1608-1674). A escolha da capa foi a mais acertada possível, são Anjos tocando As Trombetas Do Fim; Trombetas que podem ser ouvidas lendo-se os contos de Reiffer. Estremecido fiquei ao ler o primeiro conto que aqui publicarei, as Formas que o mesmo revlou, os Pensamentos que o mesmo revelou, pairam ainda aqui nas possibilidades da escrita deste comentário inicial. Antes de inserir o primeiro conto neste tópico, gostaria de atentar-me ao fato da desvalorização dos escritores brasileiros da nova geração, desvalorização efetuada pelo mercado editorial. Tomo a decisão de tocar neste assunto devido a uma entrevista que li do Reiffer no site Contos Grotescos no qual esta parte me chamou a atenção:


CONTOS GROTESCOS - Como você analisa o mercado editorial brasileiro, especialmente no tocante ao gênero fantástico?

ALESSANDRO REIFFER - Creio que em geral é fraco, preconceituoso, deficiente e geralmente preocupado somente com vender, não importando se o texto é medíocre, superficial. Tenho visto vários livros com editora e com um conteúdo vergonhoso, mas de fácil leitura, assim vende. Assim é o Brasil, o país da mediocridade. Muito acertadamente declarou certa vez um presidente francês: “O Brasil não é um país sério.”


A partir dessa parte da entrevista, devo dizer que a simples razão da não-divulgação maior de trabalhos como o de Reiffer no Brasil, onde se sobressaem os livros falando de pipas, códigos e bruxinhos, de conteúdo duvidoso e nível ainda mais duvidoso, nascem de todos os preconceitos dirigidos contra a Literatura Sombria. Não estou comparando a escrita formidável de Reiffer com a escrita ridiculamente degustável dos best-sellers; e nem cairei na mediocridade de comparar a Literatura dele com a de escritores antigos, pois Reiffer é um escritor originalíssimo, com um conteúdo sempre novo a proporcionar a todos os seus leitores, sem débeis descaminhos de fáceis toques em determinadas realidades. Conheci o trabalho dele no site Sombrias Escrituras e, no final do ano passado, adquiri o pacote completo do fanzine de mesmo nome, em cujo número 7 (O Carro, no Tarot; na Numerologia Sagrada, número que simboliza a "perfeição dinâmica entre o Espírito e a Matéria"; simbolismos fortes presentes tanto na obra poética quanto literária de Reiffer) ele inicia a sua ativa participação com o poema Dos Anjos e o conto A Gota De Sangue. No número 8 temos o conto As Carnes; no número 9, um poema sem título e o conto Um Chá Que Tomei Com A Morte; no número 10, o poema Beijo; no número 11, os versos do Poema Terrível; no número 12, o poema Situações Extremas; no número 13, o conto Um Tapa Na Cara (genialmente bem construido, narrado, desenvolvido à maneira de um organista maior das crônicas de um mundo aterrador e insano); no número 15, o poema Hino Ao Desespero; e no número 17, os versos de Profunda Reflexão Sobre A Morte E O Fim.

Na leitura completa dos contos, nota-se a aprofundação incessante nos humanos abismos que atentam contra a humana existencialidade. São símbolos encantados pelas sombras da Realidade em mundos que percorrem as notas estranhas da sensibilidade de quem convive com as humanas trevas densas que nos envolvem nesta era terrestre tão povoada de desgraças. Tudo está perdido, tudo é O Fim, tudo é O Crepúsculo, O Fim Do Homem, O Cre´púsculo Do Homem. A trajetória da leitura é feita pelas vias da Loucura, do Sonho, do Pesadelo, do Delírio, do Terror, do Horror, das Trevas Moldando As Frases, das Trevas Movendo As Palavras. Reiffer encarna em seus escritos o que seus olhos dinamicamente refletem acerca da Humanidade, uma agonizante turba, uma agonizante horda, uma agonizante desesperada trupe de seres envoltos nas chamas da desordem, da desorientação, da decadência suprema e absoluta de si mesma. A decadência povoando os contos, a decadência humana, a humana decadência, povoando os sonhos... Ler cada conto de Reiffer é atentar-se ao Desequilíbrio Mundial, a esta época de poucos seres que Sabem, que Compreender, que podem ter uma noção, maior ou menor, do que seja a Realidade. Ler cada conto de Reiffer é fazer uma viagem por rotas que afastam os mais otimistas, aqueles que pensam e dizem e gritam que "a vida é bela". Ler cada conto de Reiffer é notar, é ver, é identificar que esta nossa vida, a vida material, é uma camada densa de poeira embebida no sangue derramado a cada dia, o sangue dos chorosos, o sangue dos desgraçados, o sangue dos miseráveis, o sangue dos malditos.

Neste tópico, nos contos modelados por Reiffer veremos os chorosos e o seu sangue derramando-se.

Neste tópico, nos contos modelados por Reiffer veremos os desgraçados e o seu sangue derramando-se.

Neste tópico, nos contos modelados por Reiffer veremos os miseráveis e seu sangue derramando-se.

Neste tópico, nos contos modelados por Reiffer veremos os malditos e o seu sangue derramando-se.

Sangue d'alma derramando-se, derramar mais angustiante e doloroso do que o do sangue físico...

E O Absurdo está em ser, geralmente, cego a isso...

E O Absurdo está, também, em ser, raramente, aberto a visulizar isso...

A biografia de Reiffer está aqui inserida:


Alessandro Reiffer - O Poeta



O Convite da Assombração


E a loucura da Treva, e a loucura do Sonho...
Sinto-as todas em mim, num delírio medonho...

Silveira Neto


Meia-noite. Ou quase isso. E eu, deitado em uma simples mas confortável cama naquele rústico e antigo casebre no meio da mata, lia um dos mais insuportáveis livros dos últimos tempos, para mim. Tal livro discorria sobre qual seria o futuro da literatura, tentava prever qual o estilo literário, ou forma de se escrever que mais faria sucesso ou que prevaleceria, que seria mais adequado à civilização pós-pós-moderna. Pretendia ditar o que seria certo e errado em termos literários, estabelecer supostos princípios de uma literatura útil ou inútil, determinar regras de se escrever bem, com profundidade, originalidade, com relevância social, utilizando-se de certa dose de humor, de acordo com os padrões contemporâneos de se escrever para “melhorar a sociedade”. Afirmava que a literatura deveria “preocupar-se com o futuro da civilização”, e, para ser “séria” e aceita pelas exigências da crítica, estar decididamente engajada com as questões sociais e abrir mão das “baboseiras fantasiosas da literatura fantástica e suas alienadas categorias”.

Após ler torturado cerca de 30 páginas daquele presunçoso tratado de como se criar lixos literários, cartilha da mediocridade, decidi não mais desperdiçar meu tempo e levantei-me para deixar aquele atentado à alma da arte ao lado do fogão à lenha. No dia seguinte, o livro teria alguma utilidade: seria queimado para esquentar o leite. Então, voltei a deitar-me e ria-me daquelas imbecis observações do imbecil autor: “melhorar a sociedade”, “preocupar-se com o futuro da civilização”... Desde quando, pensei, a sociedade pode ser melhorada? E a que “futuro da civilização” o autor se refere? Que espécie de “futuro” espera-se que sobrevenha com este homem agônico e miserável que rasteja pela Terra?

Aos poucos, fui esquecendo o infame livro, e um sono estranho principiou a descer sobre meus olhos... Digo estranho, porque era um sono que não era sono, porque eu parecia dormir, mas permanecia acordado, porque eu parecia acordado, mas dormia... Posso dizer que era um estado letárgico bastante incomum... E foi nessa letargia que iniciei a ouvir uma espécie de gemido que soava distante... O lúgubre som foi lentamente se aproximando, aproximando-se, até que senti que estava praticamente ao lado de minha janela de madeira desprovida de vidro. Então, aquilo que emitia o constante gemido abriu a postigo, não sei exatamente como, mas o fez. Pude, assim, vislumbrar um enorme rosto macilento, de olhos perfeita e funestamente redondos, escuros e assustadores, com profundas olheiras, sendo o nariz ausente, possuindo uma boca envelhecida e cadavérica sem lábios. Daquele aspecto tétrico e fantasmal, destacava-se um par de imensas orelhas pontiagudas. Sua pele aparentava ser tão-somente uma repugnante membrana que permitia transparecer algo como uma rede de artérias de sangue arroxeado. A assombração interrompeu os gemidos para proferir as seguintes palavras em um tom pavoroso: “Vem, vem, entra no mato, entra no mato”. Imediatamente, levantei-me, sempre no estado letárgico, semi-acordado, semi-adormecido, e segui o espírito. Quando digo “segui”, não sei realmente esclarecer se seguia caminhando ou flutuando; acredito que era mais provável que flutuasse, pois passei facilmente pela janela. Já fora do casebre, observei que a assombração já ia longe, prosseguindo com seus fúnebres gemidos. Cada gemido ou grunhido proferido por aquela coisa gelava-me até as intimas entranhas. A criatura não possuía corpo, apresentando uma enorme cabeça com algo como uma coluna vertebral projetando-se longa e vaporosa, que se movimentava como uma cauda medonha. É claro que o ente flutuava, como uma luminosa aparição fosforescente por entre as árvores. Tentei segui-lo, mas rapidamente ele desapareceu na densidade fantasmagórica da floresta. Então, naquela sedutora noite de outono, de temperatura amena, permaneci vagando semiconsciente, desperto e sonhando entre o universo espectral daquela vegetação tétrica e exuberante.

No meu estado anormal de consciência, já não sabia o que deveria fazer, mas captava tudo ao meu redor de uma forma especialmente insólita, exacerbadas pelo meus sentidos alterados, e sentia minhas emoções profundamente exaltadas, e qualquer som ou imagem que percebesse era suficiente para me arrebatar em terríveis e sublimes sentimentos extemporâneos. Não ouvia mais as lamentações daquela macabra assombração, porém agora uma música tortuosa invadia meus ouvidos... Eram notas cantadas por um coro misto de vozes masculinas e femininas entrecortando-se sobrenaturalmente, em uma estranha canção inflamada e pungente, de indescritível tristeza e paixão. Desconhecia o idioma em que cantavam, era algo diferente de tudo o que já ouvira. Nas minhas percepções, a música provinha de todos os lados, não de um ponto definível, e trazia consigo miríades de cores, variando principalmente entre o violeta, o verde-escuro, o azul e o vermelho. Sim, eu ouvia e via(!) as ondas musicais sobre-humanas, que se acercavam, e flutuavam, e dançavam ao meu redor magnificamente. E ainda sentia o cheiro(!) da música por entre as árvores, cada nota possuindo um perfume característico, todos deliciosos e excitantes das emoções.

Instantes depois, a canção triste tornou-se terrivelmente furiosa, mas igualmente apaixonada, claro que agora com uma outra forma de paixão, a de um furacão sonoro sublimemente devastador. Minhas emoções e sensações ascenderam a um nível quase insuportável, e senti-me à beira da loucura. Foi então que principiei a avistar um intenso brilho anormal ao longe dentro da mata. Caminhei ou flutuei naquele sono-desperto em direção às insólitas cintilações e descobri um singelo e estreitíssimo caminho através do bosque, que nunca houvera percorrido ou percebido antes, embora já explorasse a mata exaustivamente em minhas andanças diurnas. Toda a trilha era cercada por gigantescas árvores assombrosas e ameaçadoras, arbustos tortuosos, cobertos por cipós e trepadeiras, e uma luz rarefeita e languorosa, não sei vinda de onde, tenuemente luminosa, permitia-me enxergar o sinuoso caminho à minha frente. Mais adiante, divisava aquelas cintilações fantasmagóricas que me atraiam de uma forma magnética, enquanto prosseguia a música furiosa e apaixonada, irradiando as cores miríficas e os aromas deleitosos.

Extasiado por tamanhas maravilhas estarrecedoras, parti, caminhando ou flutuando, rumo às fulgurações deslumbrantes. Conforme me aproximava, o brilho tornava-se pavorosamente intenso, ao mesmo tempo belo e assustador, impregnado de vida e morte, de amor e febre, de grandeza e ameaça. As árvores que me rodeavam sussurravam graves e delicadas orações, enquanto o sereno da madrugada parecia valsar em vapores e névoas fantasmais. No meu estado de semi-sono, todas as impressões eram extremamente profundas e marcantes. Eu sentia a alma da natureza de uma maneira absolutamente inusitada, que não consigo descrever com adequadas palavras.

Percorri mais algumas centenas de metros em direção ao brilho incomum, quando então vislumbrei um cenário tão fantástico, esplêndido, bizarro, como só havia visto nas pinturas de Bosch. Cantando e dançando aquela música inefável, vi centenas de almas dos mais variados aspectos e colorações; brancas, amarelas, verdes, azuis, lilases, cinzentas, algumas dançando sobre a grama e os arbustos, outras sentadas em elevados galhos das árvores, outras valsando em pares pelos ares carregados e fulgurantes. Uma infinidade de seres conhecidos e desconhecidos também dançava sob a fúria e paixão daquele som inconcebível... Eram corujas e corvos cintilantes, gatos selvagens e graxains fora dos padrões , envoltos por uma aura colorida... Silfos e sílfides, ondinas e nereidas, gnomos e salamandras davam-se as mãos por sobre um pequeno lago fosforescente com águas reverberantes... Os mais absurdos seres das mitologias pairavam e cantavam pelas atmosferas oníricas, como sacis ameaçadores, chispeantes mulas-sem-cabeça, gigantescos touros que se lançavam no lago e desapareciam como espíritos imateriais, curupiras provocadores, tristonhos e agourentos caiporas, mães-d’água aladas, centauros, morcegos com faces humanas e outras coisas fantásticas que não sei nomear... Arco-íris surgiam e desapareciam, saiam do nada e para o nada voltavam. Apoteose inverossímil da não-humana dança!

Acerquei-me perturbado e extasiado daqueles seres de sonho, e, em seguida, de um canto penumbroso, surgiu aquela assombração que me convidara na janela de meu quarto a entrar na floresta... Aproximou-se e proferiu lugubremente: “a humanidade não tem futuro, e logo não haverá mais motivos para se fazer literatura. Vem, abandona a civilização e junta-te a nós. Junta-te a nós! Antes, apenas, escreve um relato, como se fosse um conto, sobre tudo o que contigo ocorreu e do que viste esta noite, que eu me encarregarei de deixá-lo sobre tua cama, onde será encontrado quando teus amigos e familiares forem te procurar...” A assombração se escondeu outra vez, e eu... bem, eu aceitei o convite.


Publicado originalmente em: Alessandro Reiffer - O Escritor - Projeto C.O.V.A.
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